Trinta anos depois de ter transformado o mercado alemão de viagens marítimas, a indústria dos cruzeiros vive um momento de expansão sem precedentes, mas enfrenta simultaneamente uma pressão crescente de novas regulamentações ambientais que poderão alterar a estrutura de preços do sector. Segundo o portal Focus, o número de passageiros em cruzeiros na Alemanha passou de menos de 200 mil para mais de 1,5 milhões ao longo de duas décadas, com recordes alcançados no último ano.
No centro desta transformação está a Aida Cruises, sediada em Rostock, cujas origens remontam à Deutsche Seereederei, a companhia estatal de navegação da Alemanha Oriental. Após a reunificação alemã, o negócio foi privatizado e adquirido por empresários de Hamburgo, culminando no batismo do navio “Aida” há precisamente 30 anos — um momento que o investigador Alexis Papathanassis, da Universidade de Bremerhaven, descreve como um “passo audacioso”. O académico recorda que, à época, existia ceticismo quanto à viabilidade das férias em formato de clube no mar, num mercado onde os cruzeiros eram considerados um privilégio de públicos mais velhos e abastados. O êxito da Aida desencadeou o que Papathanassis designa de “democratização dos cruzeiros”, tornando acessível a milhões o que antes era uma experiência exclusiva. De acordo com uma publicação da Zeit de 1997, apenas um em cada seis passageiros da Aida havia feito um cruzeiro anteriormente — sinal claro de que o navio conquistava um público inteiramente novo. Ainda assim, os primeiros anos foram difíceis: o navio chegou a registar baixas taxas de ocupação e a atravessar dificuldades financeiras.
A estabilidade viria com a consolidação empresarial. Em 1999, a Aida Cruises foi formalmente constituída como joint venture entre a britânica P&O e a alemã Arkona Touristik; em 2003, a P&O — controlada pela Carnival, maior companhia de cruzeiros dos Estados Unidos — absorveu a marca. Hoje, a Aida lidera o mercado alemão em número de passageiros, com 1,5 milhões registados no último ano, à frente da Tui Cruises, de Hamburgo, e da MSC Cruises, de Munique. O sector aparenta ser de feição local, mas está organizado numa escala plenamente internacional: a Aida navega sob bandeira italiana, ligada à linha Costa; a Tui Cruises é uma joint venture com a norte-americana Royal Caribbean; e a MSC pertence ao grupo suíço homónimo. A Greenpeace sublinha que nenhum navio de cruzeiro internacional opera sob a onerosa bandeira alemã — reflexo das lógicas de optimização fiscal e operacional que dominam o sector.
O crescimento futuro, porém, deverá processar-se num quadro regulatório progressivamente mais exigente. A União Europeia introduziu em 2024 um sistema de comércio de emissões aplicável ao sector marítimo e determinou que, a partir de 2030, os navios nos grandes portos europeus terão de recorrer a electricidade de origem terrestre. Estas medidas impõem custos adicionais às companhias, levantando a questão de saber se esses encargos serão repercutidos nos preços dos bilhetes. Para Papathanassis, a relação qualidade-preço continuará a ser o factor determinante nas escolhas dos consumidores alemães, e a procura manter-se-á robusta, sustentada pela encomenda de novos navios e pelo desenvolvimento de cruzeiros temáticos dirigidos a novos segmentos de público.


