A tradicional peregrinação da comunidade de língua portuguesa em honra de Nossa Senhora de Fátima realiza-se esta quinta-feira, 14 de Maio, em Wiltz, num dos momentos mais aguardados do calendário religioso e comunitário no Grão-Ducado. O ponto alto das cerimónias acontece com a procissão até ao Santuário de Nossa Senhora, onde se celebra a Missa em sua honra, evento que reúne todos os anos milhares de fiéis devotos. A peregrinação acontece poucos dias depois de outra presença marcante do Agrupamento de Escuteiros Santo Afonso (AESA) na vida religiosa luxemburguesa: a procissão de encerramento da Octave 2026, realizada este domingo, 10 de Maio, na capital.
A presença do AESA na peregrinação a Wiltz é, há mais de duas décadas, parte integrante da própria identidade do grupo. Tratando-se do único agrupamento escutista de língua portuguesa em actividade no Luxemburgo, o AESA assume novamente este ano um conjunto de tarefas de serviço à comunidade durante o dia, em colaboração com a organização do evento. Os escuteiros formarão um cordão de honra à volta da imagem de Nossa Senhora de Fátima durante a procissão até ao santuário, transportarão as bandeiras protocolares à frente do cortejo, prepararão e distribuirão água aos fiéis presentes no santuário “Op Baessent” durante a celebração da Missa, e assegurarão ainda o serviço de ordem e o apoio à informação dos peregrinos. Durante a manhã, o agrupamento estará igualmente presente com um stand junto à igreja, no âmbito da sua angariação anual de fundos.
A participação do agrupamento nestas duas datas reflecte um modelo de envolvimento comunitário que se prolonga ao longo de todo o ano e que constitui uma das marcas mais duradouras da actividade do grupo. Fundado oficialmente a 4 de Fevereiro de 1982 pelo padre Belmiro Marino e pelo chefe Joaquim Pinto de Sousa, o Santo Afonso foi o primeiro agrupamento português criado fora de Portugal e mantém-se até hoje como o único de língua portuguesa em funcionamento no Grão-Ducado. A história do grupo cruza-se com a do escutismo no Luxemburgo, cuja Federação Nacional dos Escuteiros e Guias foi fundada em 27 de Novembro de 1919 e congrega actualmente milhares de membros em todo o país.
O Santo Afonso atravessa hoje uma fase de crescimento saudável, com cerca de noventa membros activos, entre jovens e adultos. A organização interna segue a estrutura tradicional do escutismo, com escalões adaptados a diferentes idades. Os Lobitos acolhem crianças entre os sete e os onze anos; os Exploradores reúnem jovens dos onze aos catorze; os Pioneiros congregam o grupo dos catorze aos dezoito; e os Caminheiros, dos dezoito aos vinte e dois, integram os elementos mais velhos. A partir dos dezoito anos, o agrupamento aceita ainda voluntários adultos dispostos a comprometer-se com a formação dos mais novos e com a animação das actividades semanais.
As reuniões realizam-se todos os sábados, entre as 13h30 e as 16h00, junto ao complexo desportivo de Bridel. A esta agenda regular juntam-se eventos de maior dimensão, como acampamentos, caminhadas, raides nocturnos e saídas ao ar livre, considerados a essência do método escutista. O contacto com o ambiente natural é assumido como peça central da experiência formativa, num registo que procura contrariar o isolamento digital e estimular a convivência, a autonomia e a descoberta. Como sublinha o chefe do agrupamento, Bruno Martins, faça chuva ou faça sol, é no contacto com a floresta e com a vida ao ar livre que os jovens encontram um espaço seguro para sair da rotina e crescer.
A pedagogia assenta no princípio do “Aprender Fazendo”, método clássico do escutismo que valoriza a tentativa, a repetição e a aprendizagem pela experiência. Atar nós, montar tendas, cozinhar em campismo, construir abrigos, organizar jogos ou planear actividades constituem oportunidades concretas para o desenvolvimento pessoal, intelectual, físico e social dos jovens, em linha com a missão fundadora do escutismo enquanto movimento de paz, cidadania activa e serviço à comunidade.
Embora o movimento escutista tenha raízes históricas no associativismo católico, o Santo Afonso assume-se hoje aberto a todos os credos e crenças, acolhendo jovens independentemente da sua origem religiosa. Junto da comunidade portuguesa, a actividade prolonga-se ainda através da animação regular da missa em língua portuguesa, ao domingo, às 10h30, na Missão Católica acompanhada pelo padre Sérgio. Entre as iniciativas que pontuam o calendário contam-se também o Magusto, a festa de encerramento do ano lectivo com sardinhada e momentos de convívio entre famílias, e várias actividades que mantêm vivas as tradições portuguesas. Tratando-se maioritariamente de descendentes de portugueses — e também de jovens com raízes cabo-verdianas e brasileiras —, o agrupamento procura ainda funcionar como espaço de prática da língua portuguesa, sobretudo para aqueles que não frequentam a Escola Portuguesa.
A presença do Santo Afonso estende-se igualmente a outros momentos do calendário cívico e cultural luxemburguês. Em Bridel, o agrupamento integra a tradicional Buergbrennen, a festa que assinala o fim do Inverno. Na capital, participa anualmente na procissão das tochas, na véspera da Festa Nacional, ao lado de outros agrupamentos.
O ano escutista é ainda marcado por momentos simbólicos próprios do método, entre os quais se destaca a cerimónia anual das promessas, na qual os novos membros recebem o lenço escutista — símbolo maior do movimento — e passam oficialmente à condição de escuteiros. A promessa assenta em três compromissos universais: o dever para consigo próprio, o dever para com os outros e o dever para com algo maior, expresso de forma diversa consoante a espiritualidade de cada um.
As inscrições para o ano escutista abrem habitualmente a 27 de Setembro e prolongam-se até Dezembro, embora os interessados possam contactar o agrupamento ao longo do ano.


