A perspectiva de um entendimento de paz entre os Estados Unidos e o Irão está a gerar um clima de optimismo nos mercados financeiros e de matérias-primas, com o continente africano a perfilar-se como um dos beneficiários indirectos de uma eventual distensão. No centro das atenções está o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais decisivas para o transporte de petróleo a nível mundial, cuja normalização poderá traduzir-se num alívio significativo para economias fortemente penalizadas pela inflação.
A relevância desta passagem, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, explica a sensibilidade dos mercados a qualquer alteração no seu funcionamento. Por ali transita uma fatia considerável do petróleo bruto comercializado em todo o mundo, pelo que qualquer interrupção tende a fazer disparar os preços da energia, ao passo que o abrandamento das tensões contribui para estabilizar as cotações. Caso o acordo anunciado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, venha a concretizar-se e a navegação seja plenamente restabelecida, o reflexo nos custos energéticos e logísticos poderá funcionar como verdadeiro bálsamo para diversos países.
Segundo a Deutsche Welle, os ganhos mais expressivos deverão sentir-se nas economias dependentes da importação de energia e de fertilizantes, sobretudo na África Oriental, no Norte de África e na região do Sahel, onde a redução dos preços do petróleo equivaleria, na prática, a um pacote de estímulo e de segurança alimentar. Já os países produtores, como a Nigéria, Angola ou a Argélia, dificilmente colherão idêntico proveito, uma vez que uma quebra acentuada das cotações tende a corroer as suas receitas de exportação.
As expectativas são particularmente elevadas na África Oriental, onde responsáveis políticos e empresários acompanham de perto a evolução do dossiê. Samuel Nyandemo, professor de Economia na Universidade de Nairobi, considera que a reabertura da rota representa uma boa notícia para o continente, com efeitos que ultrapassam largamente o mercado energético. «Assim que o Estreito reabrir, prevemos uma maior fluidez na circulação de bens e serviços», afirmou, sublinhando que as exportações para a Europa e para a Ásia poderão ser normalizadas, com a consequente redução dos custos logísticos e a estabilização das cadeias de abastecimento. A dependência regional é, de resto, notória: cerca de vinte e seis por cento das importações de fertilizantes do Quénia dependem deste canal, número que ultrapassa metade no caso do Sudão, sendo que, à escala global, um terço do comércio marítimo de fertilizantes transita por esta região.
O impacto faz-se já sentir na esfera política queniana, pressionada pela subida dos custos dos combustíveis. «As pessoas estão a sofrer e isso repercute-se na política», observou o académico, dando conta do agravamento das contas públicas em resultado dos subsídios e das dificuldades acrescidas do sector exportador — em particular do chá e do café — face ao redireccionamento do tráfego marítimo. Ainda assim, Nyandemo apela à cautela: «Só nos sentiremos tranquilos quando o acordo estiver oficialmente assinado.» Em Angola, Heitor de Carvalho, da Universidade Lusíada de Luanda, partilha a leitura de que a reabertura tornará as importações mais baratas, beneficiando consumidores e empresas, embora advirta para o efeito negativo que a queda dos preços do petróleo poderá ter, a curto prazo, sobre as receitas dos países exportadores. A prazo, o economista vê na conjuntura uma oportunidade para repensar a excessiva dependência das receitas petrolíferas: «Precisamos de diversificar», defende, considerando a reforma estrutural essencial para escapar à armadilha dos recursos naturais e abrir caminho a um desenvolvimento mais sustentável.


