O verdadeiro travão à inteligência artificial na saúde não está nos modelos nem nas plataformas, mas na matéria-prima que os alimenta: os dados. A tecnologia é a face visível do debate. A questão decisiva, essa, joga-se longe dos holofotes. A IA comporta-se como um multiplicador — melhora sistemas coerentes e agrava os que estão fragmentados —, pelo que o resultado depende sempre da base sobre a qual assenta.
Na saúde, este princípio ganha contornos particularmente nítidos. O percurso de um doente atravessa consultas, exames, diagnósticos e intervenções, e cada passagem gera informação clínica com valor. Em teoria, esses registos deveriam compor uma narrativa única e contínua. Na prática, ficam dispersos por sistemas que não comunicam entre si. Segundo um artigo de opinião publicado pelo jornal angolano Expansão, é precisamente neste terreno acidentado que se tenta instalar a inteligência artificial, com um desfecho previsível: a tecnologia acelera processos desorganizados em vez de os corrigir.
A interoperabilidade surge, então, como condição de base. Sem sistemas capazes de dialogar, a IA reduz-se a uma ferramenta isolada, e ferramentas isoladas raramente transformam estruturas. Há quem defenda o pragmatismo de começar, testar e aprender pelo caminho. O argumento tem mérito. A experimentação é, muitas vezes, inevitável. Só que, sem uma direcção definida e uma visão clara da arquitectura do sistema, cada nova solução resolve um problema pontual enquanto adiciona camadas de complexidade que depois ninguém consegue coordenar.
O risco é, portanto, estrutural. A inteligência artificial não é um destino, mas um amplificador daquilo que já existe, e um amplificador vale o que valer o alicerce em que se apoia. O que está em causa não é se Angola vai adoptar a IA nos cuidados de saúde, porque esse processo já está em marcha. Está em jogo é a preparação dos sistemas, para que a tecnologia produza um impacto real, consistente e capaz de crescer. A diferença entre seguir a transformação e liderá-la mede-se, quase sempre, pela solidez da fundação — a parte menos visível, menos mediática e, por isso mesmo, tantas vezes esquecida.


