A perda de confiança nas promessas institucionais está a comprometer a participação das comunidades em São Tomé e Príncipe, onde sucessivas expectativas frustradas podem levar os cidadãos a duvidar da utilidade das consultas públicas. O problema vai muito além das reuniões e dos compromissos anunciados. Está em causa a relação entre as populações, as instituições e os responsáveis pela execução de projectos comunitários. Segundo uma reflexão publicada pelo jornal Téla Nón, a reconstrução dessa confiança exige resultados concretos, transparência e uma prestação de contas que não termine com a recolha de assinaturas numa folha de presenças.
Um episódio ocorrido em Ponta Baleia, nas proximidades de Malanza, no distrito de Caué, no sul da ilha de São Tomé, ilustra esta realidade. Durante uma consulta comunitária dedicada à conservação ambiental, um ecólogo organizou uma actividade em que os participantes receberam etiquetas com nomes de elementos da natureza, como animais, plantas, água, montanhas e ar. Com um fio, construíram uma teia para demonstrar a interdependência dos ecossistemas. No final, quando chegou o momento de assinar a folha de presenças, uma senhora idosa comentou, em tom de brincadeira, que aqueles nomes seriam deitados fora assim que os organizadores atravessassem a ponte sobre o rio Io-Grande, pois nada resultaria daquela reunião. A observação deixou uma marca. Embora não seja possível conhecer as experiências que motivaram a desconfiança da participante, o episódio expõe um sentimento que pode surgir quando as populações são repetidamente chamadas a contribuir sem receberem informações sobre o destino das suas propostas.
A confiança, porém, não se constrói apenas com palavras. A reflexão publicada pelo Téla Nón estabelece uma ligação entre as relações humanas e a interdependência observada na natureza, recorrendo à obra O Mundo Até Ontem, de Jared Diamond, e aos estudos de Robert Putnam sobre capital social. A cooperação, o respeito pelos compromissos e a responsabilidade colectiva são apresentados como elementos indispensáveis ao desenvolvimento das comunidades. Construir estradas, escolas ou hospitais não chega quando falta credibilidade às instituições. As consultas comunitárias devem ter continuidade, com explicações sobre as decisões tomadas, os obstáculos encontrados e os compromissos que não puderam ser concretizados. Mesmo uma resposta negativa pode contribuir para preservar a confiança, desde que seja acompanhada de esclarecimentos. O silêncio, pelo contrário, alimenta a percepção de indiferença.
A responsabilidade de recuperar essa ligação não pertence exclusivamente ao Governo de São Tomé e Príncipe. Abrange igualmente escolas, universidades, empresas, organizações da sociedade civil e os próprios cidadãos. Pequenos compromissos cumpridos, mesmo sem grandes anúncios públicos, podem ajudar a restabelecer a credibilidade perdida. O país dispõe de recursos naturais, conhecimentos, criatividade e capacidade de iniciativa, mas transformar esse potencial em desenvolvimento exige relações assentes na honestidade e na cooperação. A experiência de Ponta Baleia deixa uma mensagem particularmente relevante para o futuro das comunidades são-tomenses: a esperança não depende de acreditar em todas as promessas, mas de encontrar provas de que algumas podem efectivamente transformar-se em realidade.



