Os riscos de uma nova crise económica e financeira à escala mundial estão a aumentar, mesmo numa altura em que a economia global continua a surpreender pela resistência aos choques. O crescimento potencial é fraco. A dívida pública, em contrapartida, não pára de subir. É este o retrato, feito de contrastes, que serviu de base a uma análise apresentada perante a comunidade de negócios no Luxemburgo.
A leitura coube a Andrei Radulescu, investigador do Institute for World Economy da Academia Romena e fundador da Top Macroeconomic Research, convidado pela CHINALUX para um serão acolhido pela sócia fundadora Linklaters Luxembourg. O economista sublinhou a divergência persistente entre os grandes blocos. Enquanto as exportações de bens recuaram na Zona Euro, cresceram do outro lado do Atlântico e na Ásia — uma quebra de 3,1% no espaço europeu, contra subidas de 2,7% nos Estados Unidos e de 5,2% na China, segundo dados do gabinete neerlandês de análise económica CPB. A erosão do multilateralismo e a confrontação total entre Washington e Pequim, defendeu, vieram para ficar.

As finanças públicas deterioram-se nas maiores economias, a começar pelos próprios Estados Unidos, onde o custo de financiamento a longo prazo alimenta um efeito de bola de neve difícil de travar. A par disso, abre-se um fosso tido como insustentável entre Wall Street e a chamada Main Street: os mercados accionários renovam máximos enquanto a confiança das famílias fica para trás. A hipótese de um novo abalo, avisou o investigador, ganhou terreno.
A inteligência artificial ocupou o centro da apresentação, descrita como um choque simétrico de consequências assimétricas — um progresso tecnológico sem precedentes cujos frutos se concentram, sobretudo, do lado norte-americano. Ainda assim, foi apontada como uma resposta real aos problemas estruturais da Europa e como o fôlego de que a China precisa para prosseguir uma trajectória de desenvolvimento classificada como única, agora em transição da quantidade para a qualidade e com o olhar posto no Sul Global. O apelo final foi a um novo momento de Bretton Woods, considerado urgente para evitar rupturas maiores. Não sem antes recordar um desequilíbrio incómodo: em 2023, o financiamento destinado a combater as alterações climáticas ficou-se pelos 1,8 biliões de dólares, contra 2,4 biliões absorvidos pela despesa militar.
No pano de fundo, a Europa surge como a grande perdedora das corridas globais, a ceder peso na economia mundial face aos dois gigantes. A disputa pelo acesso a recursos naturais intensifica-se — com a Rússia, os Estados Unidos e a Arábia Saudita à cabeça — e a fome, embora em recuo, permanece elevada na África subsariana e no Sul da Ásia. Voltar às raízes para encontrar as soluções certas foi a nota deixada aos presentes.
Este diagnóstico foi o ponto alto de um serão de reencontro promovido pela CHINALUX, a câmara que liga os tecidos empresariais chinês e luxemburguês. Depois das boas-vindas do presidente Jacques Bortuzzo e de Nicki Kayser, managing partner da Linklaters Luxembourg, coube a Lichuan Guo, primeiro-secretário e responsável pelo Serviço de Assuntos Bilaterais da Embaixada da China no Luxemburgo, defender o aprofundamento da cooperação entre a China e a Europa. A moderação esteve a cargo de Jingya Tian, vice-presidente da associação. Entre os novos associados apresentados contaram-se Pascal Brossard, da Foyer – Brossard & Lippert Agence Principale d’Assurances, o China Construction Bank, Philip Christ, da FIDENCE, e Shone Soltysiak, da Traiteur Julien Cliquet. Houve ainda palavras de agradecimento à Linklaters Luxembourg, a Remy Bonneau e a Adèle Dubois. O Lëtzebuerg Hoje marcou presença no evento, para o qual foi convidado.


