A capacidade de mobilizar a inteligência artificial tornou-se o novo critério que separa economias preparadas de economias dependentes. É por aí que passa, hoje, a linha divisória do poder produtivo. E nessa medição global Angola aparece a meio da tabela — 141.º lugar entre 195 países, com cerca de 27 pontos, próximo da mediana da África Subsariana.
Os números constam do Government AI Readiness Index 2025, que avalia 195 países a partir de 69 indicadores e seis pilares, da capacidade política à infra-estrutura e à resiliência. A leitura regional é dura. A África Subsariana regista uma média de 29,12 pontos e fica no último lugar entre as nove regiões consideradas pela Oxford Insights. Mas a média engana: a África do Sul lidera com 53,94 pontos, seguida das Maurícias, do Quénia e da Nigéria, com Ruanda e Gana a formar uma segunda linha da frente, enquanto vários países não passam dos vinte pontos. Entre o topo e a cauda vão mais de 41 pontos de distância.
O caso angolano é o de uma prontidão desequilibrada. Na governação, o país alcança 53,03 pontos e ultrapassa com folga a média subsariana, de 41,60. Já a capacidade política fica-se pelos 15,50, o desenvolvimento e a difusão tecnológica pelos 14,14 e a resiliência pelos 19,35 — todos muito abaixo dos valores regionais. A infra-estrutura de IA e a adopção pelo sector público situam-se perto da média. O jornal angolano Expansão resume a fractura: o problema de Angola não está entre o analógico e o digital, mas entre adoptar tecnologia e produzi-la, entre comprar instrumentos e dominar aquilo que lhes dá valor.
Por trás dos rankings está uma disputa de soberania. A União Africana elevou a inteligência artificial a activo estratégico da Agenda 2063 e reclama um caminho africano, ético e orientado para o desenvolvimento, mas essa autonomia não se decreta — constrói-se com energia, dados, investigação, empresas e instituições capazes de os articular. Sem esses elos, a transformação digital moderniza o consumo sem tocar na estrutura produtiva: o telemóvel fica mais inteligente, a economia nem sempre. Angola está precisamente nesse limiar. O risco, para quem se limitar a usar a inteligência criada noutras geografias, é acabar por tornar digital apenas a própria dependência.


