O arranque da exploração comercial do primeiro cabo submarino de fibra óptica do país abre uma nova etapa na forma como Timor-Leste se liga ao resto do mundo. A promessa é concreta: internet mais rápida, mais fiável e menos dispendiosa. A nação passa a depender muito menos das onerosas e instáveis ligações por satélite e rádio que durante anos condicionaram as comunicações internacionais.
Foi em Bebonuk, na capital Díli, que o Primeiro-Ministro Kay Rala Xanana Gusmão assinalou o lançamento comercial da Cabos de Timor-Leste, E.P., e o início das operações através do Sistema de Cabo Submarino do Sul de Timor-Leste. «Hoje é um dia importante para o desenvolvimento do nosso sistema nacional de telecomunicações», afirmou o chefe do executivo. O percurso foi longo. Em junho de 2024, o primeiro cabo submarino de fibra óptica alcançou as costas timorenses; seguiram-se a instalação, a ligação à rede e os testes necessários até chegar a este momento.
A infra-estrutura resulta de anos de planeamento. Em 2012, o Governo liberalizou o sector das telecomunicações, abrindo caminho à concorrência e à expansão dos serviços móveis, incluindo nos municípios e nas comunidades rurais. Faltava, porém, resolver uma limitação de fundo. As ligações internacionais assentavam sobretudo em tecnologias de satélite e rádio — caras, de capacidade reduzida e vulneráveis às condições meteorológicas. A aposta no cabo submarino reflectiu a visão de longo prazo consagrada no Plano Estratégico de Desenvolvimento 2011–2030, que coloca as telecomunicações modernas ao lado de estradas, portos, aeroportos, electricidade e água como bases do desenvolvimento nacional.
Há um risco que Gusmão não escamoteou: o da desigualdade digital. Em todo o mundo, o acesso à internet separa países ricos de países pobres e comunidades favorecidas das que dispõem de menos recursos — e essa divisão estende-se à educação, à informação, aos mercados e ao emprego. O cabo, defendeu, é uma oportunidade para reduzir esse fosso, desde que os serviços se tornem mais acessíveis e cheguem às escolas, aos centros de saúde e às empresas de todo o território. «O sucesso deste projecto será medido pela sua capacidade de melhorar a vida do nosso povo», sublinhou.
Os benefícios esperados são vastos. Estudantes e professores com melhor acesso a recursos educativos. Profissionais de saúde capazes de comunicar com especialistas e prestar melhores cuidados longe de Díli. Cidadãos a aceder aos serviços públicos com menos deslocações e menos custos. Agricultores, cooperativas e pequenas empresas a alcançar novos clientes. E as comunidades timorenses no estrangeiro mais próximas das suas famílias e da sua pátria.
Melhores telecomunicações são também um instrumento de diversificação económica. O país não pode depender indefinidamente das receitas do petróleo e da despesa pública — a mensagem foi clara. Uma ligação internacional fiável tornou-se requisito para atrair investimento, sustentar a actividade empresarial, o turismo e a banca, e fazer nascer novas indústrias. Aqui entra a juventude. Gusmão quer os jovens no desenvolvimento de software, nas telecomunicações, na cibersegurança, nos serviços digitais e nas indústrias criativas. «Os nossos jovens não devem ser apenas consumidores de tecnologia», advertiu, defendendo que possuam competências para criar empresas e resolver os problemas do país.
Sem pessoas qualificadas, a infra-estrutura não cumpre a sua função. O Governo defende a formação de engenheiros, técnicos, especialistas em redes e profissionais de cibersegurança timorenses, com estreita cooperação entre o Estado, as universidades, as instituições de formação e o sector privado. À própria Cabos de Timor-Leste cabe formar quadros nacionais e assegurar a transferência de conhecimento, para que o país possa operar, manter e proteger o sistema pelos seus próprios meios.
A dimensão regional também pesou no discurso. Após a adesão à ASEAN, Timor-Leste procura reforçar os laços económicos e institucionais com os vizinhos, e a conectividade digital é vista como motor desse aproximar. A ligação através da Austrália é apresentada como um primeiro passo, ao qual se deverão seguir novas ligações, nomeadamente com a Indonésia e com outras redes regionais, para aumentar a capacidade e a resiliência do sistema.
Maior conectividade traz maior responsabilidade. A mesma rede que abre oportunidades pode servir a fraude, o cibercrime e a exploração. O executivo comprometeu-se a desenvolver o quadro legal, as instituições e as capacidades técnicas para combater estas ameaças e proteger os dados dos cidadãos, num trabalho que exige cooperação entre Governo, operadores, banca, autoridades e parceiros internacionais. A Cabos de Timor-Leste, gestora de um activo estratégico nacional, deverá operá-lo com rigor e elevados padrões de segurança, sempre no interesse do povo.
O dia foi de balanço e de exigência. Gusmão agradeceu a quantos, ao longo de anos, tornaram o projecto possível, mas lembrou que muito falta fazer: alargar o acesso, melhorar a qualidade, reduzir custos e investir nas pessoas. Do cabo que chegou às costas em 2024 ao serviço que hoje arranca, o objectivo declarado mantém-se — construir um Timor-Leste mais saudável, mais instruído e mais próspero.


