Garantir o acesso a alimentos saudáveis deixou de ser uma simples rotina de subsistência para se transformar num debate sobre dignidade e justiça social. É esse o retrato traçado num artigo de opinião do jornal angolano Expansão, que coloca a chamada geração Z no centro da discussão em torno da segurança alimentar do país.
Cresceram a ouvir que Angola corria sobre rodas de ouro negro e que o progresso estava guardado nos poços de crude. Só que estes jovens viram, ano após ano, as oscilações do petróleo ditarem o que chegava à mesa de casa. Hiperligados ao mundo, mas firmemente ancorados nas dores do território, aprenderam a ler as entrelinhas dos decretos presidenciais com a urgência de quem procura respostas para o amanhã. E quando se fala de segurança alimentar, sabem que não está em causa apenas um plano de governação, mas o direito elementar de herdar um país onde a fome deixe de ser fantasma.
Ao final da tarde, pelas ruas movimentadas de Luanda, o cenário repete-se: grupos de jovens de olhos postos nos ecrãs, sintonizados com as últimas tendências, estéticas e músicas globais. Entre uma notificação do TikTok e a partilha de um meme, porém, espreita uma realidade que nenhum algoritmo consegue camuflar. O preço dos produtos básicos muda de semana para semana. A instabilidade económica não cabe num story.
Para esta juventude, segundo o Expansão, o recente Decreto Presidencial n.º 47/25 pesa muito mais do que a linguagem técnica da burocracia deixa transparecer. Desenhado para vigorar entre 2025 e 2034, o plano decenal vai moldar o tecido socioeconómico e a saúde do país precisamente no período em que esta geração atinge a idade adulta, ingressa no mercado de trabalho e assume as rédeas do consumo familiar. Não é pouca coisa.
As novas mentes do país revelam uma sensibilidade diferente, alinhada com as grandes narrativas contemporâneas da sustentabilidade, da literacia ecológica e da saúde pública. O aumento visível de patologias associadas à má nutrição e os sinais de degradação ambiental deixaram de ser abstracções de manual escolar. Por isso, os novos eixos estratégicos da ENSAN II — com particular enfoque na produção e comercialização sustentáveis, na educação alimentar e no incentivo directo à investigação científica — encontram eco imediato nas conversas de café, nos debates universitários e nas correntes de activismo digital. Talvez melhor do que qualquer geração anterior, estes jovens compreendem que a soberania de uma nação se planta primeiro na terra e se defende pelo conhecimento, pela inovação agrícola e pelo consumo consciente.
A exigência, agora, é de descentralização e de eficácia prática. As novas estruturas de governação previstas no plano, como o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSAN) e os secretariados a nível provincial e municipal, precisam de sair do papel e de se traduzir em melhorias concretas na mesa das comunidades mais vulneráveis do interior. O conformismo e as velhas promessas centralizadas já não convencem.
No horizonte, a visão estratégica de longo prazo Angola 2050. Para os jovens angolanos do século XXI, o seu êxito joga-se na capacidade de resposta às urgências do presente. Não querem apenas sobreviver às crises. Ambicionam prosperar, empreender no sector agroalimentar e liderar a transição para sistemas de abastecimento mais resilientes.


