Uma quebra de 83% no número de casas de câmbio activas em Angola, ao longo dos últimos nove anos, ilustra o alcance da crise económica que atinge o país desde 2014. O sector, que chegou a rivalizar com o mercado informal nas operações cambiais para o exterior, viu o número de operadores registados descer de 121, em 2017, para apenas 21 no final de 2025 — o que corresponde ao encerramento de 100 casas de câmbio neste período, segundo cálculos do jornal angolano Expansão, com base em dados do Banco Nacional de Angola (BNA).
A quebra resulta sobretudo da redução do volume de divisas adquiridas junto dos bancos comerciais, mas também da incapacidade de muitos operadores resistirem à crise económica e às novas regras impostas ao funcionamento do mercado cambial. De acordo com a mesma publicação, as vendas de moeda estrangeira por parte destas casas afundaram cerca de 90% desde 2019, ano em que os operadores venderam aproximadamente 46,8 milhões de dólares norte-americanos, um valor que recuou para apenas 4,6 milhões em anos mais recentes.
O declínio do sector foi gradual, mas contínuo. O ponto de viragem remonta a 2014, na sequência da queda do preço do petróleo, que reduziu de forma significativa a entrada de divisas no país. Como a economia angolana continua fortemente dependente das exportações petrolíferas, a menor disponibilidade de moeda estrangeira afectou directamente a actividade das casas de câmbio.
Foi, no entanto, a reforma cambial promovida pelo BNA que alterou de forma mais profunda o funcionamento do mercado. O reforço das exigências regulatórias em matéria de prevenção do branqueamento de capitais, identificação de clientes, requisitos de capital e obrigações de reporte fez disparar os custos operacionais, ao mesmo tempo que grande parte das operações cambiais passou a ser canalizada pelos bancos comerciais, reduzindo o espaço de actuação das casas de câmbio.
Antes do início desta reforma, em 2018, era comum encontrar casas de câmbio em praticamente cada esquina de Luanda, à semelhança do que sucedia com o mercado informal das kinguilas. Hoje, o cenário é bem diferente, com muitas lojas sem clientes e um número de operadores activos em queda constante. Na prática, os bancos comerciais passaram a vender divisas às casas de câmbio e aos prestadores de serviços de pagamento através do Instrutivo n.º 15/18, de 19 de novembro, que fixou uma margem máxima de lucro de 2% sobre a taxa oficial do BNA. Ou seja, desde novembro de 2018 as casas de câmbio deixaram de poder comprar moeda estrangeira directamente junto do banco central, passando a depender exclusivamente da banca comercial.
O sector ficou ainda de fora da plataforma Bloomberg utilizada nas operações cambiais, à qual têm acesso apenas o Tesouro Nacional, o BNA, os bancos comerciais e empresas dos sectores petrolífero, diamantífero e segurador. Segundo o Expansão, as casas de câmbio continuam a reivindicar a integração nesta plataforma, defendendo que a exclusão limita ainda mais a sua capacidade de operação.


