Uma radiografia inédita dos comportamentos, conhecimentos e vivências da população residente em matéria de saúde afectiva e sexual acaba de ser divulgada, expondo avanços notáveis a par de fragilidades persistentes em domínios sensíveis como a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (IST), o consentimento e as violências sexuais. Os dados, resultantes da primeira inquérito nacional sobre saúde afectiva e sexual (SAS), realizada em 2025, foram apresentados numa jornada dedicada ao tema, coorganizada pela Direcção da Saúde com o Centro Nacional de Referência para a Promoção da Saúde Afectiva e Sexual (Cesas).
Segundo o Governo do Luxemburgo, o estudo baseou-se num questionário informático preenchido entre 29 de Janeiro e 27 de Fevereiro de 2025 por 2.371 residentes com 18 ou mais anos, numa amostra representativa da população em termos de idade, sexo, nacionalidade, região de residência e actividade profissional. Entre os resultados mais relevantes para a vida quotidiana dos residentes, destaca-se que o primeiro relacionamento sexual ocorre, para quase metade dos inquiridos, entre os 16 e os 18 anos, sendo que 85% afirmam que esse momento foi desejado e consentido. No que respeita à identidade e à orientação sexual, 10% dos participantes definem-se como não heterossexuais e 1% não se revê nas categorias tradicionais de homem ou mulher, ao passo que 12% das pessoas inquiridas relatam já ter sofrido comentários, perguntas ou julgamentos negativos ligados à sua sexualidade ou expressão de género, uma percentagem que sobe significativamente entre pessoas com deficiência e entre quem teve um primeiro relacionamento sexual precoce.
No capítulo da prevenção, um dado chama especial atenção: 15% dos inquiridos afirmam já ter contraído uma IST ao longo da vida e, apesar de 84% considerarem estar bem informados sobre o tema, apenas 39% dos jovens entre os 18 e os 24 anos garantem ter usado protecção sistematicamente com todos os parceiros nos últimos doze meses. A taxa de rastreio revela-se igualmente moderada, com apenas 31% dos participantes a terem realizado um teste nesse período, ainda que 56% já o tenham feito ao longo da vida. O estudo aponta ainda equívocos preocupantes: 42% da população acredita, erradamente, que é possível contrair uma IST através de um piercing ou tatuagem, e 14% pensa que tal pode acontecer ao beber do copo de uma pessoa seropositiva. Relativamente à contracepção, 68% recorreram a um método aquando do primeiro relacionamento sexual, mas mais de um terço (38%) desconhece que este acesso é actualmente gratuito no país, e 89% mostram-se satisfeitos com o método que utilizam actualmente. Ao longo da vida, 17% das mulheres inquiridas afirmam já ter recorrido a pelo menos uma interrupção voluntária de gravidez (IVG), sendo que metade destas intervenções ocorreu no Luxemburgo e a outra metade no estrangeiro.
Os dados relativos ao consentimento e às violências sexuais revelam uma realidade que continua a preocupar as autoridades, sendo porventura o ponto mais sensível de todo o inquérito para a população: 34% dos inquiridos declaram já ter sentido pressão de um parceiro para manter relações sexuais, situação muito mais frequente entre mulheres (50%) do que entre homens (18%), e que atinge mais de metade das pessoas com deficiência ou que tiveram um primeiro relacionamento sexual precoce. Além disso, 31% referem já ter tido uma relação sexual não desejada sob essa pressão, e 8% da população afirma já ter sido vítima de violação, uma percentagem que sobe para 35% entre quem teve um primeiro relacionamento sexual precoce. Entre as vítimas de violação, 60% afirmam ter falado do sucedido a alguém de confiança, mas apenas 15% apresentaram queixa formal às autoridades, sendo que quem partilhou a experiência com alguém tem quatro vezes mais probabilidade de ter avançado com uma queixa.
No domínio da educação sexual, 44% dos que frequentaram total ou parcialmente a escolaridade no Luxemburgo beneficiaram de sessões dedicadas à saúde afectiva e sexual, ainda que quase metade destes (49%) considere que essas aulas responderam apenas de forma fraca ou moderada às suas dúvidas. Os profissionais de saúde, sobretudo ginecologistas e médicos de clínica geral, surgem como a principal fonte de informação da população adulta em geral, ao passo que os mais jovens recorrem também a plataformas como o sante.lu. «Esta inquérito dá-nos uma visão clara das expectativas e das realidades vividas pela população. Estes resultados constituem uma base sólida para reforçar as nossas acções e promover uma saúde afectiva e sexual assente no respeito e no consentimento», sublinhou Martine Deprez, ministra da Saúde e da Segurança Social. O Governo do Luxemburgo recorda que várias medidas já foram implementadas para reforçar os direitos sexuais e reprodutivos, entre as quais a gratuidade da contracepção, a inscrição do direito à IVG na Constituição e a supressão do prazo de reflexão obrigatório antes da interrupção voluntária de gravidez, a par de iniciativas como o projecto «Let’s Talk about Sex!» e o reforço do apoio a vítimas de violência através do Centro Nacional para Vítimas de Violência, que assegura acompanhamento permanente, vinte e quatro horas por dia.


