O caminho de Dhammaghosananda
Abrandar até ao limite, fazer silêncio e aprender a olhar para dentro pode tornar-se, em determinado momento de uma vida, o gesto mais transformador de todos. Foi essa a descoberta de Noel O. Furrer, o suíço que esteve por detrás de alguns dos espaços de vida nocturna e de hospitalidade mais badalados da Ásia — entre eles o China Rouge, o sofisticado lounge do complexo Galaxy Macau que recriou o glamour da velha Xangai e se tornou uma das referências da noite macaense — e que mais tarde se dedicou ao coaching pessoal e executivo, à frente do projecto Personal Growth Lab. Esse percurso de êxito acabaria por dar lugar à vida monástica num templo de meditação no Camboja, onde foi ordenado com o nome de Dhammaghosananda. Em entrevista ao Letzebuerg Hoje, o monge — que faz questão de recordar que a sua história «não é sobre a pessoa, mas sobre o caminho» — descreveu o percurso que o levou do esgotamento ao hábito cor de açafrão e explicou por que razão acredita que muitos ocidentais procuram hoje, sem saberem ainda como, exactamente o mesmo: parar.

O acidente que obrigou a parar
A reviravolta começou com um acidente que ele próprio descreve, de forma desconcertante, como algo que, no fundo, sabia precisar de acontecer — chega mesmo a dizer que o «manifestou». Durante mais de trinta e cinco anos trabalhou sem descanso, movido pela busca de amor, de aprovação e de gratificação vinda do exterior, sempre a correr para o desafio seguinte. Quando o acidente surgiu, percebeu que alguma coisa tinha de o travar — não num sentido de querer terminar a vida, sublinha com firmeza, mas no sentido de uma interrupção inevitável a um ritmo que já não conseguia sustentar. Era como ser despedido de uma vida inteira de azáfama, sem saber ainda o que viria a seguir.
Foi no hospital, imobilizado e dependente de um botão para chamar quem o pudesse ajudar até nas tarefas mais simples, que se viu confrontado com uma escolha. Tinha diante de si dias longos e vazios: podia preenchê-los com centenas de filmes e séries ou podia usar aquele tempo para tentar perceber quem era e o que o tinha transformado naquela pessoa em permanente fuga para a frente. Escolheu a segunda hipótese. O algoritmo do YouTube acabou por ser, de forma quase irónica, a porta de entrada para essa procura: foi assim que chegou a autores e mestres como Eckhart Tolle, autor de O Poder do Agora, ao «canalizador» Abraham Hicks, a Gabor Maté — centrado no trauma e nas feridas de infância — e ao professor de meditação Michael Singer. A ideia que retirou de todos eles foi sempre a mesma, e tornou-se o alicerce de tudo o que se seguiu: não somos o problema; o que conta é a forma como reagimos a ele.
Da ajuda a famílias deslocadas ao hábito monástico
A meditação e a procura de autoconhecimento não fizeram, porém, dele um monge de um dia para o outro. Há cerca de um ano, ainda incerto quanto ao rumo a tomar — como recordou ao editor do Letzebuerg Hoje, num encontro que tiveram na Suíça —, dizia continuar a voltar ao Camboja sem saber explicar bem porquê, com a sensação de que ali havia algo «por terminar». Foi por essa altura que sentiu, pela primeira vez, vontade de fazer algo sem esperar nada em troca. O conflito na fronteira entre o Camboja e a Tailândia tinha deixado muitas famílias deslocadas, e, com um amigo próximo de longa data, especialista em meditação no Camboja, decidiu que não podia limitar-se a ensinar e a rezar sem agir — não fazia sentido falar de compaixão e, ao mesmo tempo, ficar de braços cruzados.
Foi durante esse trabalho humanitário, ao serviço das pessoas afastadas das suas casas pela guerra, que conheceu de perto a comunidade monástica. O convite para se tornar monge surgiu quase como uma brincadeira, mas a resposta foi imediata: sim. Noel explica que adoptou como princípio dizer sim a tudo o que lhe é oferecido e que sente como certo no corpo — aquilo a que chama autenticidade, a tal «sensação na barriga». Tinha aprendido, justamente nessa fase de procura, que a recusa é, muitas vezes, apenas a forma de evitar o caminho certo. Aceitar a proposta foi, aos seus olhos, um sinal de que o universo, ao vê-lo no rumo correcto, lhe oferecia o passo seguinte. E essa peça que faltava, percebe hoje, era precisamente aquilo que o fazia regressar uma e outra vez àquele país sem motivo aparente.

O primeiro monge estrangeiro ordenado em Oudong
A ordenação teve lugar no Vipassana Dhura Buddhist Center do Reino do Camboja, em Oudong — o grande templo-mãe, antiga capital real, que reúne mais de cento e vinte monges. Foi o venerável Bhikkhu Dhammatthero, presidente daquele centro, quem o ordenou, fazendo dele o primeiro monge estrangeiro alguma vez ordenado naquele templo, um marco que confere à sua história um peso simbólico que ultrapassa o percurso individual. A entrada na vida monástica não é, contudo, um processo automático nem confortável. Durante o primeiro mês, antes da ordenação, o candidato veste-se de branco e fica sujeito a uma espécie de prova: não sai, não foge, e tudo aquilo de que precisa lhe é entregue, mas longe da cidade e sem transportes, sem possibilidade real de abandonar o lugar. É um teste velado à firmeza da decisão, em que a pessoa, sem dar por isso, se deixa absorver pela nova vida. Nessas primeiras semanas dormiu como há muito não dormia e, ao não fazer nada, viu as emoções começarem a emergir. Recorda-se de varrer da maneira errada e de querer, ainda assim, mostrar aos outros monges que era útil — um reflexo do velho hábito de procurar reconhecimento que o acompanhara a vida inteira.
Depois vieram os cânticos, os rituais e a aprendizagem de uma rotina inteiramente nova, sob a orientação de Bhikkhu Kassapa, responsável pelo seu ensino e supervisão, tudo o que ele compara a «borboletas no estômago» — estranho, especial, estimulante. O verdadeiro teste, diz, chegou mais tarde. Passados três ou quatro meses, quando a novidade deu lugar à repetição dos dias, desceu àquilo a que chama a «toca do coelho»: dúvidas profundas, a voz do ego a perguntar o que estava ali a fazer, a lembrar que tinha cinquenta anos, que estava a deixar de ganhar dinheiro e que talvez se tivesse precipitado. Foi o período mais difícil de todo o processo, agravado pela reacção de muitas das pessoas que o rodeavam.
As reacções de quem ficou e de quem regressou
No início, os comentários negativos não faltaram. Houve quem deixasse de responder, quem simplesmente desaparecesse, convencido de que ele tinha enlouquecido. Mas, curiosamente, foi também nessa altura que muitas pessoas regressaram à sua vida — sobretudo as que já tinham atravessado provações duras. Refere amigos com cancro, alguns ainda em luta com a doença, pessoas que sofreram acidentes graves e amigos próximos que sempre souberam que ele precisava de seguir um caminho diferente daquele que vinha trilhando e que voltaram, agora, com um respeito renovado. São, observa, quase sempre os que mais sofreram que melhor compreendem a necessidade de uma viragem destas.
O exemplo mais marcante é o do irmão, com quem já quase não mantinha relação. Em Fevereiro, esse irmão viajou até ao Camboja para o visitar, e o reencontro foi, nas palavras do monge, um processo de cura e de aproximação tão profundo que reataram laços que pareciam perdidos. Algo semelhante aconteceu, garante, na relação com os pais — que a sua decisão acabou por reaproximar, em vez de afastar.

Pais ocidentais, católicos e de mente aberta
Sendo ocidental e de família católica, seria de esperar resistência por parte dos pais. A realidade, conta, foi o contrário — e tem uma explicação que recua quarenta anos. Foram precisamente os pais que, em criança, o levaram a Bali e à Tailândia, despertando nele desde cedo a pergunta sobre por que viviam num sítio e procuravam a felicidade noutro. Na altura, confessa, nem sequer valorizava a Suíça, sempre virado para a próxima descoberta, a próxima viagem, a próxima coisa — uma inquietação a que prefere hoje chamar curiosidade. Mas os pais ensinaram-lhe a respeitar diferentes culturas e religiões, levaram-no a templos no Sudeste Asiático, mostraram-lhe o hinduísmo de Bali e transmitiram-lhe uma mensagem que carregou toda a vida: ser de mente aberta, tratar bem as pessoas e nunca perder as suas raízes. Recorda que, mesmo hoje, o som dos cânticos dos monges lhe provoca arrepios e uma sensação de regresso a casa, como se aquela energia lhe tivesse sido familiar desde sempre.
Já demasiado idosos para viajarem até à cerimónia, os pais não puderam estar presentes na ordenação. No seu lugar, teve «pais espirituais», próximos do mestre que o ordenou, a quem passou a chamar pai e mãe, embora visse neles os verdadeiros progenitores que não puderam ali estar — um momento que viveu com emoção contraditória, entre a tristeza pela ausência e a certeza de que a mesma energia os tornava, de algum modo, presentes. A mãe, ao receber as primeiras fotografias, perguntou-lhe a brincar se estava doente e por que tinha cortado o cabelo — mas, no fim, ambos aceitaram bem a decisão, precisamente porque já eram, segundo ele, pessoas de mente aberta e conheciam o significado de ser monge. Acredita que quem viaja desenvolve uma consciência mais ampla, ao contrário de quem nunca saiu do seu lugar e julga o mundo apenas a partir daquilo que conhece — como certas tias octogenárias que nunca foram sequer a Zurique e que, ao vê-lo de hábito, reagem com a naturalidade de quem aceita o que não compreende inteiramente.

«Não percas as tuas raízes»
Questionado sobre se, ao seguir este caminho, não terá afinal perdido as raízes que os pais tanto lhe pediram para preservar, responde com convicção que não. Para si, qualquer rótulo ou religião aponta para o mesmo: pertença, respeito, bondade amorosa, confiança e cuidado. Descreve a vida como uma série de círculos concêntricos que começam, antes de tudo, em nós próprios — a relação mais importante e, paradoxalmente, a que mais esquecemos. Quando se pergunta às pessoas quem é a pessoa mais importante da sua vida, observa, respondem quase sempre os pais, o marido, a mulher; raramente acertam, porque a resposta certa são elas mesmas. Só depois de nos darmos a nós próprios amor, descanso, conhecimento e respeito, e de aprendermos a falar connosco com a mesma delicadeza com que falaríamos a outra pessoa — em vez de nos maltratarmos com palavras que jamais dirigiríamos a alguém —, conseguimos recarregar a bateria e cuidar dos que nos rodeiam: pais, companheiros, colegas, vizinhos e, por fim, até daqueles com quem não nos entendemos.
Nesse mapa, o perdão ocupa um lugar central — mas com um sentido invertido. Para ele, não se trata tanto de perdoar os outros como de perdoar a forma como reagimos a eles; um gesto que considera, ao mesmo tempo, profundamente «egoísta» e profundamente belo, e que a maioria das pessoas nunca chega a praticar. As raízes, conclui, não são um lugar. A verdadeira casa não está num ponto do mapa, porque o lugar é apenas mais um rótulo, mas dentro de cada um — na própria consciência, onde nos sentimos finalmente em paz. É esse, diz, o verdadeiro enraizamento que aprendeu, e que pode reencontrar tanto entre os monges do Camboja como em qualquer outra parte do mundo.
Um nome com um significado
A própria designação que recebeu na ordenação encerra, de forma quase poética, a viragem da sua vida. Dhammaghosananda resulta da união de três palavras de raiz páli: Dhamma, que designa o ensinamento, a verdade ou a rectidão — a doutrina do Buda; Ghosa, que significa som, voz ou proclamação; e Ānanda, que evoca a bem-aventurança, a alegria, o deleite. Lido na sua totalidade, o nome aponta para algo como a alegria de dar voz ao ensinamento — uma síntese curiosa para quem, durante décadas, fez precisamente da voz, do espectáculo e da criação de ambientes a sua profissão, e que hoje a coloca ao serviço de um propósito inteiramente diferente.

A mensagem para quem atravessa tempos difíceis
A quem enfrenta hoje as mesmas dificuldades que ele atravessou, Dhammaghosananda deixa um conselho que repete três vezes, como se nele residisse toda a chave: abrandar. Respirar fundo e dizer à criança interior três palavras simples — «está tudo bem». Quando a preocupação ou o pensamento excessivo apertam, basta repetir a si próprio que está bem, que tudo está bem. E recusa a ideia de que isso só seja possível a quem tem dinheiro ou bens. Conta que, no Camboja, há quem estranhe ouvir um europeu vindo de um país rico falar de paz interior numa casa de madeira humilde; a sua resposta é que a felicidade não depende daquilo que se possui. A paz, insiste, não está na riqueza, mas no que se passa por dentro. Mesmo perante a dor — e ele convive com parafusos no corpo, sequela do acidente —, é possível encontrar um instante de tranquilidade, fechar os olhos, concentrar-se na respiração e perceber que, naquele preciso momento, durante alguns segundos, não existe problema algum.
É esse intervalo, por mais breve que seja, que a prática de meditação procura alargar. Não se trata de ignorar os problemas, esclarece, nem de fingir que não existem, mas de criar espaço interior para os observar a uma certa distância — vê-los de outra maneira. Com esse espaço, deixamos de reagir de imediato e passamos a responder. Dá o exemplo de quem se sente provocado e, em vez de explodir, faz uma pausa de três segundos — três, dois, um — e respira. Muitas vezes, nesse intervalo, a reacção já se desfez, e poupamo-nos ao arrependimento de palavras ou gestos de que mais tarde nos envergonharíamos — algo que, lembra, qualquer pai ou mãe reconhece nas reacções precipitadas perante uma criança que os tira do sério.
Como funciona o templo de Kep e quem o pode visitar
Numa nota mais prática, o monge explicou ao Letzebuerg Hoje que reside hoje no Vipassana Dhura International Buddhist Center, na província de Kep, no sul do Camboja — um ramo do grande templo de Oudong, presidido pelo venerável Bhikkhu Kassapa, com quem conduz actualmente retiros em inglês. O centro está aberto a pessoas de fora, independentemente de viverem ou não uma crise. Trata-se de um espaço de meditação implantado na floresta, de acesso livre e funcionamento assente em donativos, onde convivem monges, monjas e hóspedes — categoria em que ele próprio se inclui. Quem queira recarregar energias ou simplesmente afastar-se do mundo exterior pode estabelecer contacto através do sítio na internet, do Facebook ou do Telegram, escolhendo depois entre diferentes modalidades de estadia.
A primeira é uma estadia individual de dois a três dias, numa cabana simples a que chamam kuti — apenas uma cama, água fria e mais nada. Pede-se a quem chega que não traga praticamente nada; o telemóvel é tolerado para a orientação, dado que recebem muitos visitantes, mas há cacifos onde tudo o resto pode ficar guardado. A pessoa senta-se, sem livros nem leituras, e a única sugestão é trazer um caderno em branco para registar e libertar os pensamentos, dando-lhes uma forma e deixando-os ir. Muitos dos que procuram esta experiência são pessoas com elevados recursos e enorme responsabilidade, esgotadas, incapazes de parar — exactamente no ponto em que ele próprio esteve, quando recorria ao YouTube em busca de respostas. A rotina é rigorosa: levantar entre as quatro e as cinco da manhã, sem voltar a dormir nem ficar a deambular; pequeno-almoço; meditação, caminhada, varrer ou alguma tarefa propositadamente simples, só para fazer algo; e almoço por volta das dez e meia, oferecido pelos aldeões, sem possibilidade de escolha nem de dietas especiais.
É aí, diz, que se aprende a humildade e se percebe a força absurda dos desejos — a aflição por não ter café, açúcar ou manteiga, a sensação de que não se sobrevive sem aquilo a que estávamos habituados. Despir tudo até ao essencial pode ser profundamente libertador, embora tudo dependa, mais uma vez, de se responder em vez de reagir. Há quem parta ao fim de um dia, por achar tudo demasiado, e isso é aceite com naturalidade; segundo o monge, há pessoas que precisam ainda de sofrer um pouco mais para, mais tarde, conseguirem suportar e aprofundar a experiência. Outras, passados dez ou quinze minutos de desconforto, descobrem que, afinal, não era assim tão mau.

Quatro dias de silêncio e a cerimónia que faz chorar
A segunda modalidade, mais exigente, prolonga-se por quatro ou mais dias e reúne entre cinquenta e sessenta pessoas, igualmente de forma gratuita. Todos vestem de branco, de modo que ninguém saiba quem é executivo, médico ou outra coisa qualquer — uma igualdade deliberada que dissolve estatutos. Depois do pequeno-almoço, o grupo reúne-se num grande salão para cânticos dedicados ao Buda, que não são, sublinha, orações: não se reza ao Buda, exprime-se gratidão e bondade amorosa pelos seus ensinamentos. Segue-se cerca de uma hora de silêncio absoluto e, só então, o ensinamento sobre os obstáculos da mente identificados pelo Buda — as cinco impurezas ou entraves, entre os quais a raiva, o julgamento, a ganância, o desejo sensual, a mágoa e o medo —, que se manifestam na meditação tal como na vida.
Na prática, esses obstáculos disfarçam-se de pequenos incómodos: o mosquito que pousa na pele, a respiração demasiado audível do vizinho do lado, o sol, o vento, tudo passa a ser de mais. Aprende-se a deixar ir, a permanecer imóvel e a concentrar a atenção na respiração, suportando o desconforto, mas sem masoquismo — há que distinguir o incómodo inventado pela mente da dor física real de quem, como ele, tem parafusos no corpo. Entre o conhecimento e a prática alternam-se meios-dias de silêncio; à noite há nova palestra de Dharma e espaço para perguntas, embora se recomende o silêncio total ao longo dos quatro dias, sem qualquer interacção com os demais. O ponto alto chega ao quarto dia, com a cerimónia de quebra do silêncio. Sentadas a cerca de sessenta centímetros umas das outras, pessoas que nunca trocaram uma palavra nem sequer se olharam começam a falar — e a maioria desfaz-se em lágrimas, pela libertação que é voltar a comunicar; algumas já não conseguem parar, outras preferem permanecer caladas e adiar o regresso à azáfama do mundo. Findos os quatro dias, cada um pode prolongar a estadia ou voltar a casa, sendo aconselhável chegar um ou dois dias antes e ficar mais dois depois, para integrar com calma o que se viveu.
Uma «universidade da mente» no coração da floresta
O monge resume o centro como uma verdadeira «universidade da mente», uma escola prática de atenção plena, e estabelece um paralelo certeiro: há quem pague dois mil dólares por mês a um treinador para cuidar do corpo, ao passo que ali os «treinadores da mente» trabalham gratuitamente. O próprio nome do lugar encerra a sua filosofia — Vipassana significa olhar para dentro, ver as coisas como realmente são, e Dura remete para o fardo, para o sofrimento que, segundo o Buda, a todos atravessa. Instalado entre árvores, com macacos por vizinhos, chuva em boa parte do ano e amplos espaços abertos, o templo não é, faz questão de dizer, um retiro fabricado para turistas, mas um lugar real, com uma energia que se sente — qualquer estação serve, garante, porque a experiência não depende do tempo que faz, mas da disposição de quem chega.

Do auge do sucesso à alegria interior
Há, no percurso de Furrer, uma coerência que o próprio talvez só hoje reconheça por inteiro. Antes do hábito, foi figura de relevo na hospitalidade e na noite asiáticas, criando espaços que se tornaram símbolos de luxo e de exuberância — desse mundo faz parte o China Rouge, o lounge de mais de mil e seiscentos metros quadrados do Galaxy Macau, concebido para evocar o esplendor da Xangai dos jardins, com interiores sumptuosos e espectáculos ao vivo. Mais tarde, voltou-se para o coaching pessoal e executivo, ajudando outros a desbloquear o seu potencial a partir de uma convicção que continua a ser o fio condutor da sua vida actual: a de que somos levados a acreditar que a felicidade está na acumulação de conquistas, perseguindo objectivos na expectativa de que o êxito satisfaça os desejos mais profundos, para depois descobrirmos que isso nos deixa vazios. A verdadeira transformação, defendia já então, nasce de desbloquear a alegria que existe dentro de cada um — e foi precisamente esse princípio, levado às últimas consequências, que o conduziu dos salões iluminados de Macau à cela de meditação na floresta de Kep.
E é talvez essa autenticidade — a mesma que ele aprendeu a reconhecer no próprio corpo, na tal «sensação na barriga» que o leva a dizer sim ao que sente como certo — que torna a sua história tão próxima de quem, longe dali, num escritório no Luxemburgo, em Lisboa ou em qualquer outra cidade, começa a desconfiar de que correr mais depressa não é a resposta. Para esses, a mensagem mantém-se inteira e desarmante na sua simplicidade: abrandar, respirar e lembrar que, neste preciso instante, está tudo bem.



2 comentários
Thank you very much for this beautiful article, @Joao.
You welcome… thank you for sharing your life with us all this years. You are an inspiration for everyone