A devolução à cena de vozes femininas durante décadas silenciadas pela historiografia oficial do teatro brasileiro é o eixo do novo ciclo de leituras públicas que decorre entre 10 e 31 de Maio. Dedicado às actrizes do Teatro Experimental do Negro de São Paulo (TENSP), companhia que existiu entre 1945 e 1966, o programa propõe-se restituir centralidade artística e histórica a um conjunto de intérpretes cuja contribuição foi sistematicamente relegada para as margens da memória cultural brasileira. Sob o título “Mulheres no Teatro Experimental do Negro de São Paulo”, o ciclo XXVIII do Programa de Leituras Públicas homenageia figuras como Áurea Campos, Chica Lopes e Jacira Sampaio, a que se juntam outras actrizes da companhia, como Alice Rezende e Nair Araújo.
O ponto de partida do projecto está na reflexão da professora e dramaturga Leda Maria Martins, que ao denunciar a invisibilidade das mulheres nos estudos dedicados ao TENSP estimulou a concepção desta iniciativa. “Após participar da oficina Dramas Negros, ficou evidente a necessidade de reavaliar a importância das vozes femininas no nosso teatro”, explicou Otacílio Alacran, coordenador do Programa de Leituras Públicas. A curadoria está a cargo de William Santana Santos, que sublinha o carácter reparador do projecto: “Este ciclo permitirá ao público descobrir personagens e narrativas que foram moldadas por essas mulheres e imaginar realidades diversas para as mulheres negras na São Paulo do século XX”.
A programação contempla obras de dramaturgos de referência, como Eugene O’Neill e Lorraine Hansberry, autores que marcaram o repertório do TENSP. Entre os momentos altos do ciclo conta-se a homenagem a Hansberry com a leitura de “A raisin in the sun” (“O sol tornará a brilhar”), uma das primeiras peças assinadas por uma dramaturga negra a chegar à Broadway e cujo projecto de encenação pelo TENSP, nos anos 60, nunca chegou a concretizar-se. A leitura far-se-á a partir de uma tradução inédita assinada pela dramaturga Fernanda Rocha, ao lado de outras convidadas como Aysha Nascimento e Dirce Thomaz.
A par do enfoque no protagonismo feminino do TENSP, o ciclo retoma o trabalho com o público acima dos 60 anos, em parceria com o colectivo Confraria da Voz, dedicado à expressão artística através do canto, reforçando a dimensão intergeracional do programa. As sessões decorrem aos domingos, sempre às 15 horas, na Sala Experimental do Tusp, na Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, com entrada livre. Mais do que uma agenda cultural, o “Ciclo XXVIII: Mulheres no TENSP” afirma-se como um exercício de reparação histórica, devolvendo à cena pública nomes e obras essenciais à compreensão do teatro brasileiro do século XX.


