Um sistema meticuloso de sedução e controlo psicológico está no centro das acusações contra Daniel Siad, um caça-talentos francês suspeito de ter preparado jovens mulheres para serem entregues a abusadores sexuais, entre os quais o norte-americano Jeffrey Epstein. É o que revelam dois testemunhos recolhidos pela France24, prestados por mulheres que descrevem um processo de manipulação faseado, destinado a testar os limites das vítimas antes de as expor a situações de abuso. Juliette G., uma ex-modelo francesa de 43 anos, relata que em 2004 Siad a abordou numa avenida de Paris, prometendo oportunidades profissionais nos Estados Unidos. Convencida pela aparente legitimidade do contacto — a sua agência de modelos afirmava conhecê-lo —, viajou para Nova Iorque sem desconfiar do que a esperava.
Ao chegar à cidade, Juliette foi conduzida a um endereço na Madison Avenue onde encontrou Epstein, nome que Siad nunca havia mencionado. O investidor, já condenado em 2008 por solicitar serviços sexuais a menores de idade, apoderou-se do seu passaporte — o que ela descreve como “a tomada de refém” — e ofereceu-lhe 120 dólares e um passeio de limusine. “Sem o meu passaporte, não poderia sair”, recorda. No dia seguinte, ao regressar ao edifício convicta de que teria uma reunião profissional, foi levada a um ginásio decorado com imagens de mulheres e, depois, a um quarto. Epstein tentou persuadi-la de que necessitava ver o seu corpo para a recomendar a agências, apalpou-a, e afirmou que a sua figura não era adequada. Propôs ainda que trabalhasse como acompanhante em festas. Juliette fingiu considerar a oferta enquanto exigia a devolução do passaporte — que estava junto a uma pilha de cerca de vinte outros — e conseguiu escapar.
O caso de Juliette não é isolado. Ebba Karlsson, modelo sueca de 56 anos, acusa igualmente Siad de a ter manipulado, desta vez com o objectivo de a apresentar a Gerald Marie, antigo responsável da agência Elite, conhecida por representar supermodelos como Naomi Campbell e Claudia Schiffer. Karlsson conta que Siad a abordou na Suécia em 1990, quando tinha 20 anos, prometendo uma carreira de sucesso que nunca se materializou. Progressivamente isolada e sem recursos, acabou por ser violada pelo caça-talentos numa casa perto de Cannes, após o que ele anunciou ter encontrado um emprego para ela na Elite. O encontro com Marie terminou em agressão sexual no interior do seu escritório. O advogado de Marie negou as acusações, classificando-as de infundadas. Karlsson abandonou o meio e regressou à Suécia, nunca mais voltando.
Epstein morreu em 2019 na prisão, enquanto aguardava julgamento por crimes de tráfico sexual de menores. Siad encontra-se actualmente sob investigação em França, sendo um dos vários homens acusados de ter facilitado os abusos do investidor. Jean-Luc Brunel, agente de modelos detido em 2020 por alegado recrutamento de mulheres para Epstein, foi encontrado morto na prisão em 2022. Tanto Juliette como Karlsson afirmam ter decidido prestar declarações para apoiar as investigações em curso e alertar outras mulheres para os mecanismos de manipulação que as tornaram vulneráveis.


