A presença crescente de crianças a vender produtos nas ruas da capital timorense tornou-se uma preocupação de dimensão nacional, mobilizando autoridades comunitárias e instituições de protecção da infância para uma resposta coordenada. Cerca de cem crianças foram identificadas apenas no troço entre Comoro e Becora, em Díli, evidenciando a gravidade de um fenómeno que se estende a múltiplos municípios do país.
A maioria das crianças identificadas naquela artéria provém dos bairros de Bebonuk, Comoro, Colmera, Mascarinhas e Bidau, havendo ainda casos de menores deslocados de outros municípios, como Ermera, Aileu, Oecusse e Baucau, o que revela que o trabalho infantil não é um problema circunscrito à capital, mas uma realidade transversal ao território.
Agostino do Rego, representante da comunidade de Suco Madohi, no Posto Administrativo Dom Aleixo, manifestou a sua preocupação ao observar crianças em idade escolar entregues à venda de mercadorias nas ruas. “Nestas idades tão tenras, as crianças não deveriam estar à procura de dinheiro, nem muito menos a vender. Deveriam estar a frequentar a escola, que é essencial para o seu futuro”, afirmou. Rego sublinhou que, embora as necessidades económicas possam forçar famílias a recorrer ao trabalho dos filhos, os pais têm a responsabilidade de assegurar a formação das crianças como condição indispensável para um sustento futuro digno. “O trabalho infantil resulta frequentemente das necessidades económicas, mas os pais têm de prestar atenção ao futuro dos seus filhos, insistindo na sua educação, que é um factor crucial”, salientou.
Do lado institucional, a presidente do INDDICA — Instituto para a Defesa dos Direitos da Criança —, Dinorah Granadeiro, confirmou que o trabalho infantil continua a constituir uma das principais preocupações da organização, que tem vindo a desenvolver campanhas de sensibilização em vários municípios. “Os nossos esforços estão a decorrer em Ainaro, Covalima, Manatuto, Manufahi e Bobonaro, e planeamos continuar o trabalho em Viqueque, Lautém, Liquiçá e Oecusse”, explicou.
Granadeiro adiantou que estas iniciativas incidem sobre os direitos das crianças e o quadro legal de protecção da infância vigente no país. A estratégia inclui a coordenação com uma task force multisectorial, com a participação das forças policiais, e prevê, numa primeira fase, a colocação de avisos em locais específicos para reforçar a proibição efectiva do trabalho infanto-juvenil.
Os dados disponíveis sublinham a urgência de uma intervenção estruturada: a dimensão do fenómeno em Díli, aliada à sua extensão a outras regiões do país, exige que a resposta vá além da sensibilização pontual e se traduza em políticas sustentadas de apoio às famílias e de garantia do direito à educação para todas as crianças timorenses.


