O humor da diáspora portuguesa chega ao Luxemburgo a 8 de Outubro com “No Recipe Needed!”, espectáculo dos The Portuguese Kids que promete transformar em comédia muitas das situações vividas por quem cresceu numa família portuguesa fora de Portugal. Brian Martins e Derrick DeMelo sobem ao palco do Carlitos Comedy Club para uma noite que junta stand-up, sketches, cenas escritas, improvisação e uma boa dose de português misturado com inglês.
É a estreia dos The Portuguese Kids no Grão-Ducado. E há expectativa dos dois lados. Numa entrevista exclusiva ao Letzebuerg Hoje em antecipação da passagem pelo Luxemburgo, Derrick DeMelo confessou estar particularmente curioso por conhecer uma comunidade portuguesa que, apesar de ainda não ter recebido o grupo, há muito estava no seu radar. “Estamos ansiosos para conhecer esta comunidade no Luxemburgo”, afirmou. A passagem pelo país surgiu por sugestão do comediante português André de Freitas, que chamou a atenção para a forte presença portuguesa e incentivou o grupo a acrescentar esta data à digressão europeia.
O espectáculo escolhido para esse primeiro encontro não podia estar mais ligado à experiência da emigração. “No Recipe Needed!” não tem, como o nome indica, uma receita fechada. “Tem stand-up, tem sketch, tem cenas escritas. E também tem improvisação. É uma mistura de todas as coisas”, antecipou Derrick. No centro de tudo está, contudo, uma ideia muito concreta: “A alma da nossa comédia é viver numa casa portuguesa fora de Portugal.”

Isso significa que a noite de 8 de Outubro não será exclusivamente em inglês. O espectáculo cruza naturalmente as duas línguas que acompanharam os comediantes desde a infância. Derrick explicou que em casa se falava português e que, quando representam os pais, muitas das piadas surgem nessa língua. Quando regressam às personagens das crianças que foram nos Estados Unidos, aparece o inglês. A improvisação com o público acrescenta uma componente imprevisível a cada sessão.
A passagem pelo Luxemburgo integra uma digressão bastante mais longa. Além da Europa (Lisbos e Porto), os The Portuguese Kids seguem depois para o Canadá e para a Austrália, onde estão previstas novas actuações, incluindo datas ainda por anunciar em Melbourne e Perth. Ao longo da carreira, o grupo já passou por comunidades portuguesas nos Estados Unidos, Canadá, Bermudas e Austrália. O Luxemburgo representa agora uma nova paragem nesse mapa da diáspora.
E Derrick quer aproveitar a viagem para perceber como vivem os portugueses no país. O interesse não termina quando se apagam as luzes do palco. O comediante falou do desejo de conhecer a comunidade, descobrir o Luxemburgo e, inevitavelmente, experimentar a comida portuguesa que aqui se faz. Depois de tantos anos a actuar perante emigrantes e lusodescendentes espalhados pelo mundo, cada comunidade oferece uma versão diferente — e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar — da mesma história.
Por detrás do espectáculo estão mais de duas décadas de comédia. Nascidos e criados em Fall River, no Massachusetts, cidade norte-americana profundamente marcada pela imigração portuguesa, Brian Martins e Derrick DeMelo transformaram as próprias experiências familiares em matéria-prima para os The Portuguese Kids. O projecto nasceu de amizades de infância e de pequenas representações para familiares, passando depois por “Ludicrous Speed”, um programa de televisão de acesso público produzido durante os anos de faculdade. Brian Martins recebeu formação no Improv Asylum, em Boston, e no UCB Theater, em Nova Iorque, e acumulou experiência em improvisação e escrita de sketches. DeMelo, também fundador do grupo, leva igualmente cerca de duas décadas a fazer rir comunidades portuguesas.
É justamente dessa vida entre a cultura norte-americana e as raízes portuguesas que nasce grande parte das personagens. Pais, avós, sotaques, comida, festas, diferenças entre gerações e aquelas regras familiares que nem sempre eram fáceis de explicar aos amigos americanos acabaram no palco. Os dois perceberam cedo que os números sobre famílias portuguesas eram precisamente aqueles em que o público mais se revia. A experiência luso-americana deixou de ser apenas uma fonte ocasional de piadas e passou a constituir a identidade dos The Portuguese Kids.
A história pessoal de Derrick DeMelo ajuda a explicar essa ligação. O português foi a sua primeira língua. Quando entrou na escola, em Fall River, não sabia inglês. Aprendeu-o nas aulas, mas também diante da televisão, vendo “Scooby-Doo”, “Mister Rogers” e “Sesame Street”. Em redor havia uma comunidade portuguesa próxima, com festas, gastronomia e tradições próprias, coexistindo diariamente com a sociedade norte-americana.
Dentro de casa surgiam situações que muitos filhos de emigrantes reconhecerão imediatamente. Os pais não dominavam o inglês e eram frequentemente os filhos a assumir o papel de intérpretes. Derrick recorda ter ajudado o pai com documentos e assuntos que exigiam uma língua que este não lia nem escrevia. Ainda criança, acabava por funcionar como intermediário entre os pais e o país onde viviam. Anos depois, essas situações transformaram-se em material para a comédia.
Quando a Internet começou a levar os vídeos dos The Portuguese Kids para fora dos Estados Unidos, surgiu uma descoberta importante. Portugueses e lusodescendentes em lugares tão diferentes como Paris e África do Sul escreviam para dizer praticamente a mesma coisa: aquilo também acontecia nas suas casas. Para DeMelo, a explicação está na bagagem invisível de quem emigra. As pessoas levam consigo tradições, hábitos e maneiras de viver que permanecem nas comunidades durante anos — por vezes durante gerações.
O YouTube teve, por isso, um papel importante na expansão do projecto. Os sketches, paródias e vídeos sobre situações familiares portuguesas permitiram aos The Portuguese Kids chegar a públicos que nunca tinham assistido aos seus espectáculos ao vivo. O grupo soma milhões de visualizações nas plataformas digitais e mantém presença no YouTube, Facebook, Instagram, TikTok, Threads e X, onde continua a alimentar uma audiência espalhada por diferentes continentes.
A televisão abriu outra frente. Brian Martins e Derrick DeMelo são autores de “Portuguese Problems”, série de comédia de seis episódios centrada na experiência de crescer português fora de Portugal. A produção, transmitida pela RTP e disponível na RTP Play, conta também com Mike Rita, Vanessa Medeiros, Taylor Amarante, Chantell Arraial e Graça Pinhanços. Brian Martins partilha a realização com Dean Câmara.
A história vai continuar. Na entrevista concedida antes da vinda ao Luxemburgo, Derrick DeMelo revelou que a segunda temporada de “Portuguese Problems” já está gravada e encontra-se em pós-produção. Ainda não há uma data definitiva para a estreia.
A mistura de português e inglês também faz parte dessa identidade. DeMelo fala mesmo de uma espécie de “porto-inglês”, expressão usada para descrever a combinação das duas línguas que aparece naturalmente nas conversas de muitos luso-americanos. Há palavras que chegam primeiro em inglês, outras em português. Não é uma construção pensada para o palco. É simplesmente a maneira como muitos cresceram — e, naturalmente, acabou por entrar na comédia.
Hoje, a relação com Portugal passa igualmente pela geração seguinte. Derrick é pai e procura manter os filhos ligados às suas origens. A família regressa regularmente a Portugal, aos Açores e ao continente, e o comediante diz que os filhos sentem orgulho nas raízes portuguesas. Admite, porém, um arrependimento: não lhes falou português tanto quanto gostaria e, consequentemente, eles não dominam a língua como ele desejaria.
Mais importante para Derrick DeMelo é que conheçam a história que está antes deles. Nas viagens a Portugal, procura mostrar aos filhos os lugares ligados à família e transmitir-lhes a dimensão do esforço feito pelos avós. A geração que partiu teve de chegar a outro país sem dominar a língua, trabalhar e construir uma vida a partir de muito pouco. Esse sacrifício, defende, não deve desaparecer da memória familiar.
É essa combinação de orgulho, choque cultural, memória familiar e situações absurdamente quotidianas que chega agora ao Carlitos Comedy Club. O cenário é diferente de Fall River, Toronto ou das cidades australianas onde já actuaram. A matéria humana, essa, poderá ser bastante reconhecível para muitos portugueses e lusodescendentes residentes no Grão-Ducado.
Os bilhetes Early Bird, vendidos por 18 euros acrescidos de 0,45 euros de taxa de serviço, já estão esgotados. A entrada geral custa 20 euros, mais 0,50 euros de taxa, enquanto o preço anunciado para compra à porta é de 25 euros, acrescido de 0,63 euros. “No Recipe Needed!” decorre no dia 8 de Outubro, entre as 20h00 e as 21h40, no Carlitos Comedy Club, na cidade do Luxemburgo.




1 comentário
Pingback: The Portuguese Kids prometem casa cheia - Lëtzebuerg Hoje