A preservação da obra de uma das vozes maiores da literatura são-tomense ganhou um novo palco com a descoberta de poemas inéditos da escritora Conceição Lima, revelados durante o 1.º Festival Tributo de Ação à São. O acervo, encontrado pela família após a morte da autora, confirma que a poetisa trabalhava em novos projectos literários e abre caminho à publicação de obra póstuma.
O festival nasceu de uma iniciativa da CACAU, com o objectivo de preservar o legado deixado por Conceição Lima, falecida a 15 de maio aos 64 anos. À organização juntaram-se a embaixada de Angola, o Instituto Camões e outras instituições, num esforço comum para eternizar o nome e a obra da escritora, distinguida em vida como embaixadora da cultura do país.
Entre os momentos altos do programa esteve o recital de um poema de ocasião por Marty Pereira, cujos versos, a par das rimas do grupo «Ilha dos Poetas Vivos», tocaram fundo na consciência nacional são-tomense. O encontro recordou ainda a ligação da poetisa às celebrações dos 50 anos da independência: integrante da comissão dos festejos, Conceição Lima desafiou o músico Kalú Mendes a dar melodia a um dos seus textos. «Fui convidado pela São e pela equipa da celebração dos 50 anos da independência nacional para compor uma música, em que a São escreveu a letra», recordou o artista, antes de interpretar «São Tomé e Príncipe… Nossa Terra… Nossa Mãe».
A revelação dos manuscritos coube à irmã da autora, Celiza de Deus Lima, que confirmou a existência de trabalho ainda por publicar. «Descobrimos muitos poemas inéditos da São. Ela estava a trabalhar em pelo menos duas obras e teremos seguramente obra póstuma», afirmou. A familiar sublinhou o carácter colectivo do projecto de memória, garantindo que a sociedade, os amigos e a família não deixarão o nome e a obra da poetisa ao acaso.
A perpetuação desse legado encontra continuidade em novas gerações, como observou Ivanic Lopandza, jovem ligado à poesia e à literatura, que destacou a dimensão social da escrita de Conceição Lima. Recordou o documentário «Fitxicêlu» (Feiticeiro), produzido pela autora, e o poema que sobre o mesmo tema compôs, denunciando a marginalização e a morte de pessoas idosas e pobres acusadas de feitiçaria. Segundo o jornal Téla Nón, a emigração — fenómeno tão presente na realidade são-tomense — foi outro dos eixos que ganharam expressão artística nos textos da escritora, prova de uma obra que continua viva e em diálogo com as questões mais urgentes do país.


