Uma expressão de calão pode mexer com a própria gramática de uma língua, e não apenas com o seu vocabulário. É o que parece estar a suceder no português do Brasil, onde a construção «é papo de» se tornou frequente nos registos mais informais e começa a atrair quem estuda a evolução da língua. O caso foi analisado numa coluna do Jornal da USP, assinada por dois linguistas dedicados à observação da mudança linguística.
Antes de chegar a esta nova forma, a palavra «papo» percorreu um longo caminho. Designava, à partida, a «búcula» — o tecido gorduroso e mole por baixo do queixo, segundo a definição recolhida no Dicionário Houaiss. Como essa zona do corpo se mexe sempre que falamos, o termo passou, por metonímia, a valer «conversa». Nasceu assim o «bate-papo». O registo escrito mais antigo desta expressão, recorda o Jornal da USP, surgiu numa edição do jornal O Globo, em 1935, ainda que, como é habitual na mudança das línguas, já circulasse antes na fala. Com o tempo, «papo» fixou-se no sentido de conversa, a ponto de poucos repararem que se trata de um brasileirismo.
O passo mais recente desta viagem é precisamente «é papo de». Repare-se no exemplo que serviu de ponto de partida à análise: um perfil futebolístico brasileiro, indignado com a expulsão do jogador Plata numa partida do Flamengo, escreveu que «é papo de encostar o jogador e não entrar mais em campo». Traduzindo: seria «o caso de» afastar o atleta. A mesma fórmula surgiu numa moda de Instagram que convidava os utilizadores a publicarem fotografias antigas, com aparências bem diferentes das actuais. A legenda repetida à exaustão dizia «é papo de tirar outro CPF» — o CPF é o número que identifica os contribuintes no Brasil. Aqui, «papo» já nada tem que ver com a búcula nem com uma simples conversa.
O que se passa, então? Segundo o Jornal da USP, estamos perante uma construção emergente, lida à luz da chamada Gramática das Construções, corrente que tem na linguista norte-americana Adele Goldberg uma das suas maiores referências. A ideia central é simples: certos modos de dizer deixam de ser junções ocasionais de palavras e passam a funcionar como convenções partilhadas pelos falantes, com um sentido que não resulta apenas da soma das partes. «É papo de» seria um recurso de modalização — uma maneira de o falante apresentar uma consequência, uma hipótese ou uma medida como fortemente plausível. O jogador prejudicou a equipa? «É papo de» o afastar. A pessoa mudou muito de aparência? «É papo de» tirar novos documentos.
Fica também, dos autores, o reconhecimento de que o tema merece estudo mais aprofundado. Por enquanto, ficamos com a percepção de uma expressão viva e produtiva, nascida no uso quotidiano — e que, quase sem se dar por isso, vai remodelando a gramática de quem a usa.


