Após mais de duas décadas a circular com as actuais imagens de pontes e janelas, as notas de euro preparam-se para uma transformação histórica. O Banco Central Europeu (BCE) anunciou que a decisão final sobre o desenho da nova série de notas será tomada até ao final de 2026, num processo iniciado em 2021 que envolveu três grupos de peritos independentes e uma vasta sondagem pública a 365 mil cidadãos europeus.
Lançado a 15 de Julho de 2025, o concurso de design dirigido a profissionais residentes na União Europeia encerrou no final de Abril deste ano, ficando agora o júri encarregado de escolher até dez propostas finalistas — cinco por cada um dos dois temas em competição — que serão submetidas à apreciação do público. O primeiro tema, intitulado “Cultura Europeia: espaços culturais partilhados”, abandona a abstracção arquitectónica para colocar, pela primeira vez, rostos reais nas notas. Segundo a proposta do BCE, a soprano Maria Callas figuraria na nota de cinco euros, o compositor Ludwig van Beethoven na de dez, a cientista Marie Curie na de vinte, o escritor Miguel de Cervantes na de cinquenta, o polímata Leonardo da Vinci na de cem e a Nobel da Paz Bertha von Suttner na nota de duzentos euros. No reverso de cada nota surgiriam cenas da vida cultural quotidiana, desde artistas de rua a festivais de canto, passando por bibliotecas, salas de aula e praças arborizadas onde crianças e adultos se reúnem.
A alternativa, designada “Rios e Aves: resiliência na diversidade”, afasta-se das figuras humanas e celebra o património natural europeu. Cada nota associaria uma paisagem fluvial a uma ave característica — um picanço-de-muralha junto a uma paisagem montanhosa, um guarda-rios numa cascata, uma cegonha-branca a sobrevoar um vale fluvial — enquanto no verso seriam representadas as instituições europeias, como o Parlamento Europeu ou o Tribunal de Justiça da União Europeia. Apesar de muitas dessas aves e rios serem desconhecidos do europeu comum, defensores desta opção argumentam que rios e aves não conhecem fronteiras, atravessando o espaço Schengen com a desenvoltura dos perfeitos europeus.
Nenhuma das opções escapa, porém, à controvérsia. A escolha das seis personalidades para o tema cultural deixou de fora catorze dos vinte países da zona euro, incluindo a Irlanda, Portugal, o Luxemburgo e os Estados bálticos, o que alimenta a crítica de comentadores que questionam quem representa verdadeiramente a Europa e segundo que critérios. Mais aceso foi o conflito diplomático entre Paris e Varsóvia em torno do nome de Marie Curie: embora a Polónia não use o euro, vários funcionários polacos, incluindo o governador do banco central Adam Glapiński e eurodeputados, instaram formalmente o BCE a reconhecer o apelido de solteira da cientista, Skłodowska, recordando que a sua omissão apaga uma parte vital da história da Polónia. Cedendo à pressão, o BCE actualizou os seus materiais oficiais para se referir à cientista como “Marie Curie (nascida Skłodowska)”, num compromisso temporário destinado a reconhecer a sua dupla herança. Comentadores polacos sublinharam ainda a dimensão política da disputa, notando que outras figuras como Cervantes ou Beethoven mantêm os seus nomes originais em cada versão linguística.
Antes da decisão final do Conselho do BCE, os cidadãos europeus serão chamados a uma consulta pública para indicarem os seus desenhos preferidos. Mesmo após essa escolha, o público terá ainda de esperar vários anos até as novas notas chegarem às suas carteiras, dado o complexo processo de produção e adaptação dos equipamentos de tratamento de numerário. Uma certeza já existe: a nova série não incluirá a nota de quinhentos euros, cuja produção foi suspensa em 2019 por estar frequentemente associada a branqueamento de capitais, evasão fiscal e tráficos ilícitos, ainda que as notas existentes mantenham curso legal sem qualquer prazo de validade. Resta saber se, no final, os europeus escolherão olhar para o seu dinheiro e ver o rosto dos gigantes da sua cultura, ou as paisagens e a fauna de um continente partilhado.


