O fim de um percurso que transformou a memória, a identidade e a perda na matéria essencial da criação artística marca o desaparecimento de Christian Boltanski, falecido aos 76 anos no hospital Cochin, em Paris. Multimédia e profundamente introspectiva, a sua obra interrogou durante décadas o significado da mortalidade e da recordação, conferindo-lhe um lugar entre as figuras mais influentes da arte contemporânea europeia. «Estava doente. Era um homem reservado, que escondeu as coisas o máximo de tempo que pôde», declarou Bernard Blistène, antigo director do Centro Pompidou, instituição que no ano passado acolheu uma exposição do artista.
A morte, ocorrida em Paris e noticiada em primeira mão pelo diário Le Monde, foi divulgada pela France 24 a partir de um despacho da agência AFP. Boltanski tornou-se conhecido por combinar objectos banais do quotidiano com fotografias, vídeos e esculturas, alternando essa linguagem com instalações de escala monumental. Entre os trabalhos que ele próprio descrevia como uma «psicanálise ingénua» contam-se os batimentos cardíacos gravados de milhares de pessoas numa ilha remota do Japão, uma passadeira rolante com imagens de centenas de crianças e pilhas de caixas de bolachas que ostentavam os nomes de pessoas falecidas.
Em 2010, o artista ganhou notoriedade ao aceitar ceder, durante o resto da vida, vinte e quatro horas de gravação vídeo do seu atelier parisiense ao coleccionador australiano David Walsh, que fez fortuna no jogo, em troca de pagamentos regulares. O valor total a desembolsar dependia do tempo que Boltanski viesse a viver, num acordo de contornos macabros que rapidamente despertou a curiosidade mediática. «Ele garantiu-me que morrerei antes de terminarem os oito anos, porque nunca perde. Provavelmente tem razão. Não cuido muito bem de mim, mas vou tentar sobreviver», disse então o artista, segundo a AFP.
Filho de um médico judeu de origem ucraniana, convertido, e de uma mãe católica francesa, Boltanski nasceu a 6 de setembro de 1944, quando a Europa ainda vivia sob o impacto do Holocausto nazi. Durante a ocupação alemã da França, na Segunda Guerra Mundial, a mãe, afectada pela poliomielite, escondeu o pai debaixo das tábuas do soalho do apartamento e simulou que o casal se havia separado. Criado entre histórias de amigos da família que sobreviveram ao genocídio, e marcado pelo receio da separação, partilhou durante anos o quarto dos pais. Definindo-se como uma criança «extremamente estranha… muito peculiar», abandonou a escola aos 13 anos, incapaz de se exprimir.
A vocação artística surgiu nas primeiras experiências com argila e tinta, que cedo o levaram a produzir grandes telas. Realizou a primeira exposição em maio de 1968, aos 23 anos, mas, depois de cerca de duzentas obras, abandonou em definitivo a pintura para se concentrar em novas formas de expressão, a começar pelas curtas-metragens. Nesse mesmo ano publicou o primeiro livro, no qual reunia recordações da infância entre 1944 e 1950, e em 1971 alcançou projecção internacional com «Álbum da Família D», a primeira de uma série de obras construídas a partir de mosaicos de fotografias de pessoas. Em «Inventários», descreveu os tesouros guardados nas gavetas de indivíduos anónimos.
Após a morte dos pais, em meados da década de 1980, a sua obra tornou-se mais sombria. Em «Personnes», em 2010, recebeu os visitantes do Grand Palais, em Paris, com enormes montes de roupa e o aquecimento desligado no vasto edifício, numa meditação sobre os campos de extermínio nazis. Cinco anos depois, uma exposição na galeria Marian Goodman, também em Paris, apresentou imagens holográficas do próprio artista, jovem e envelhecido, com as palavras «chegada» e «partida» projectadas nas paredes e um relógio que contava os segundos da sua existência. Casado com a artista contemporânea Annette Messager, com quem decidiu não ter filhos, Boltanski deixa, nas palavras de Blistène, «uma grande perda». «Acima de tudo, amava a transmissão entre as pessoas através das suas histórias e das suas memórias. Permanecerá como um dos maiores contadores de histórias do seu tempo. Foi um inventor extraordinário», sublinhou o antigo director do Centro Pompidou.


