A gastronomia macaense, o teatro em patuá, os azulejos e as procissões católicas figuram entre os 98 elementos oficialmente inscritos na lista do património cultural imaterial de Macau. A herança portuguesa, sedimentada em séculos de convivência luso-chinesa, ocupa aqui um lugar que ultrapassa a mera nota de rodapé. Onde as tradições chinesas dominam pelo número, o legado luso resiste e afirma-se.
A lista foi construída por etapas. Começou em 2017, com 15 itens, e cresceu depois de forma acentuada: 55 novos elementos em 2020 e mais 28 este ano. Segundo o Governo de Macau, a elaboração e actualização do inventário assentam na Lei de Salvaguarda do Património Cultural, cabendo ao Instituto Cultural conduzir todo o processo, do levantamento à inscrição final. Identificar, confirmar e proteger o que corre risco de desaparecer — é esse o propósito.
É à mesa e na fé que a marca portuguesa mais se sente. A cozinha macaense entrou logo em 2017. Seguiram-se, em 2020, as técnicas do pastel de nata, do bolo de manteiga macaense e da doçaria de matriz ocidental — a que a revisão deste ano juntou a pastelaria ocidental e os costumes macaenses do chá. As celebrações católicas têm peso próprio. A Procissão do Senhor dos Passos e a devoção a Nossa Senhora de Fátima abriram caminho, antes das festas de Santo António, de São João e da Imaculada Conceição e, agora, da veneração a Nossa Senhora da Saúde. Persistem também o teatro em patuá, as danças folclóricas portuguesas, as canções macaenses e o azulejo, ofício chegado de Portugal.
O trabalho não está fechado. O Instituto Cultural pretende continuar a rever e a ampliar o inventário, e a lei abre a porta a que serviços públicos, comunidades, associações ou simples particulares proponham novas candidaturas, desde que reúnam a documentação exigida e ouvido o Conselho do Património Cultural. Para as comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo, incluindo as que vivem no Luxemburgo, esta lista vale como registo vivo do que Portugal deixou no Oriente. E que ali continua a ser rezado, cozinhado e cantado.


