A reflexão crítica sobre a identidade nacional cabo-verdiana volta ao centro do debate cultural com a celebração dos 90 anos da revista Claridade, fundada em 1936 e considerada um gesto inaugural da modernidade intelectual no arquipélago. Mais do que uma publicação literária, a Claridade representou uma viragem decisiva na forma como Cabo Verde passou a olhar-se a si próprio, instituindo um novo modo de pensar a nação a partir de dentro, com rigor analítico e responsabilidade cultural. A efeméride é assinalada pelo jornal Expresso das Ilhas, que recolheu, em entrevista conduzida por Brito Semedo, o testemunho do artista plástico e pensador Leão Lopes sobre o legado desta geração fundadora.
Para Leão Lopes, doutorado pela Universidade de Rennes II e autor de uma tese sobre o escritor Baltasar Lopes, regressar à Claridade é regressar às circunstâncias em que Cabo Verde começou a redefinir-se a si mesmo. Segundo o Expresso das Ilhas, o pensador considera que a publicação foi a primeira plataforma a colocar o arquipélago no centro da reflexão, propondo uma análise sistemática conduzida por uma geração que recusava a mera repetição cultural do passado e procurava compreender a singularidade histórica, social, linguística e humana do território. Foi assim que nasceu uma nova linguagem nacional, simultaneamente insular e atlântica, ainda hoje pouco explorada na sua profundidade crítica e frequentemente reduzida a uma leitura estritamente literária.
A obra de Baltasar Lopes, em particular o romance Chiquinho, é apontada como expressão maior dessa consciência colectiva em formação. Antes de construírem um país em palavras, os jovens autores da Claridade — com idades compreendidas entre os 26 e os 30 anos — iniciaram um processo de autoconhecimento e de afirmação identitária que extravasou para o mundo. Os constrangimentos coloniais e a censura, longe de inibirem o projecto, funcionaram como factor impulsionador de uma escrita crítica que abordou temas como a seca, a emigração e a identidade, instituindo uma pedagogia da observação rigorosa da realidade cabo-verdiana e configurando um verdadeiro acto de resistência intelectual.
Aos 90 anos, a Claridade não se esgota numa evocação memorialística. O movimento, que se prolongou até 1960 e inaugurou uma tradição crítica ainda activa, continua a suscitar debates, releituras e novas interpretações. Leão Lopes sublinha, em declarações ao Expresso das Ilhas, que num tempo marcado pela brevidade e pela superficialidade, o desafio actual reside na capacidade de reencontrar essa exigência intelectual sob novas condições sociais, culturais e políticas. A figura de Baltasar Lopes, cujo aniversário se assinala a 23 de abril, permanece como referência viva que interpela Cabo Verde e simboliza uma geração que soube transformar uma condição periférica em centralidade reflexiva, unindo passado, presente e futuro numa mesma exigência de pensamento.


