A preservação da morna e os desafios que enfrenta num mercado musical dominado pela lógica das visualizações e do lucro imediato estiveram no centro de uma entrevista concedida por Cremilda Medina, uma das vozes mais reconhecidas da música tradicional de Cabo Verde. A cantora natural de São Vicente deixou um apelo claro à nova geração e às instituições: sem investimento estruturado na formação e no intercâmbio entre gerações, o futuro do género corre riscos.
Classificada Património Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, a morna atravessa, segundo Cremilda, um momento de recuperação. “A morna atravessou um período algo crítico, mas actualmente encontra-se em boa trajectória, com muitos jovens a tocar e a interpretar o género de forma autêntica”, afirmou a artista, reconhecendo a evolução estética como um processo natural, desde que não comprometa a essência do género, que permanece a base da identidade musical cabo-verdiana.
O principal obstáculo, na perspectiva da intérprete, não é a falta de talento, mas a estrutura do mercado. “Infelizmente, a música tradicional não gera as visualizações e o lucro que outros estilos conseguem. Os artistas necessitam de subsistir”, disse, explicando que esta pressão económica leva muitos músicos a explorarem outras sonoridades em busca de sustentabilidade financeira. Para Cremilda, inovar é legítimo, mas não deve significar o abandono ou a desvalorização da música cabo-verdiana — e a ferida mais profunda, sublinhou, não vem de fora. “O mais doloroso não é a desvalorização feita pelo exterior, mas sim a que parte dos próprios cabo-verdianos”, frisou.
A cantora abordou igualmente as dificuldades práticas na organização de concertos com formações completas de música tradicional, apontando as limitações financeiras e a escassez de patrocínios como os principais entraves. Muitos artistas que actuam no estrangeiro debatem-se com a impossibilidade de apresentar em Cabo Verde os mesmos projectos com o nível técnico desejado.
Como solução, Cremilda propõe um investimento estruturado na formação artística e na criação de pontes entre gerações. “Temos músicos da velha guarda que ainda estão activos e seria benéfico promover encontros com a nova geração, para que não se percam as técnicas tradicionais de tocar”, sugeriu, defendendo ainda a presença da música tradicional nas escolas e a criação de espaços de partilha entre mestres e jovens intérpretes. Elementos como o dedilhar da guitarra e o uso do bordão, considerados fundamentais na sonoridade histórica cabo-verdiana, são, no seu entender, um legado que não pode ser deixado perder-se.
Em relação ao seu mais recente álbum, “Lágrima”, Cremilda revelou “alegria e orgulho” pelo resultado, destacando a participação de artistas de referência da cena musical nacional. “É um disco bastante completo. Sinto-me realizada e, por agora, pretendo dar um tempo ao público para saborear o álbum antes de divulgar novos projectos”, concluiu.


