O agroturismo comunitário do sul de São Tomé e Príncipe ganhou um novo instrumento de valorização do cacau e de dinamização da economia local com a abertura da Rota do Cacau do Sul, um percurso guiado que liga a produção agrícola ao património histórico e cultural da comunidade de Água Izé. Na localidade do distrito de Cantagalo, a iniciativa procura transformar as visitas dispersas ao cacau são-tomense num produto turístico estruturado e sustentável.
Trata-se de um percurso circular de 2,5 quilómetros, com uma duração média de duas horas e um nível de dificuldade moderado, conduzido por guias locais formados para o efeito. O trajecto integra a passagem pelo Centro de Processamento de Cacau da Associação de Produtores de Cacau de Qualidade, atravessa o coração da comunidade de Água Izé — realçando o seu património arquitectónico e histórico — e prolonga-se pelas parcelas agrícolas dos produtores, integradas no Sistema Agroflorestal. Desta forma, os visitantes podem conhecer de perto as diferentes etapas da produção e do processamento do cacau, bem como a sua importância económica, social e cultural para as populações da zona sul do país.
Apresentada como um produto turístico inovador no arquipélago, a rota alia a promoção do património agrícola e cultural à valorização de um dos produtos mais emblemáticos de São Tomé e Príncipe, proporcionando uma experiência imersiva e sensorial em torno da vida da comunidade e das tradições locais. Mediante marcação prévia e consoante a disponibilidade, os visitantes podem ainda participar em experiências práticas como a colheita e a quebra do cacau, aprofundando o contacto com este universo.
Segundo o Jornal Tropical, o Projecto Nossa Terra – Nosso Futuro, que está na origem da iniciativa, apostou também na capacitação, através de uma formação de 71 horas dirigida a 17 actores da comunidade, entre os quais guias locais, membros da direcção da Associação de Produtores de Cacau de Qualidade de Água Izé e produtores de cacau. O projecto apoiou igualmente a preparação dos espaços de visita, com a construção de pontos de informação e a colocação de placas informativas ao longo do percurso.
A rota nasceu da necessidade de profissionalizar e organizar a actividade de visitas ao Centro de Processamento, anteriormente realizada de forma tímida e pouco estruturada em parceria com algumas agências turísticas. Concebida em articulação com a CECAQ-11 – Cooperativa de Exportação de Cacau de Qualidade, a Associação de Produtores de Cacau de Qualidade de Água Izé e a Associação de Guias Locais, a iniciativa permite descobrir o Sistema Agroflorestal do Cacau de São Tomé e Príncipe, reconhecido em 2024 pela FAO como Sistema Importante do Património Agrícola Mundial. O percurso valoriza ainda a condição singular do arquipélago, o primeiro país do mundo reconhecido pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera na sua totalidade.
A gestão da rota ficará centralizada na Associação dos Produtores de Cacau de Qualidade de Água Izé, com mais de uma década de experiência na gestão técnica e financeira da produção e do processamento do cacau, em parceria com a Associação dos Guias Locais. O mecanismo criado prevê uma distribuição justa das receitas pelos vários intervenientes — guias, técnicos, agricultores e administração —, reservando ainda um fundo para apoiar os desafios de desenvolvimento da comunidade. Financiado pelo Camões, I.P., e implementado pela Associação Marquês de Valle Flôr com o apoio do Instituto Marquês de Valle Flôr, em estreita parceria com o Ministério da Agricultura, Pescas e Desenvolvimento Rural de São Tomé e Príncipe, o projecto tem como objectivos consolidar as fileiras de exportação, reforçar o reconhecimento dos produtos são-tomenses no mercado e diversificar o rendimento das famílias agrícolas através do agroturismo.


