A história das lutas de libertação nacional dos cinco países africanos de língua oficial portuguesa passará a ser escrita pelos próprios povos que a protagonizaram. O trabalho, reunido em três volumes, tem publicação prevista para 2027 e nasce de uma ambição clara: afirmar o direito e a responsabilidade dos PALOP em produzir conhecimento sobre o seu passado, confrontando narrativas incompletas, imprecisas ou condicionadas por visões exteriores. Não se trata de apagar o contributo de investigadores externos. Trata-se de recuperar vozes, memórias e documentos a partir dos territórios que se libertaram do domínio colonial português.
As equipas de investigação de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe estão reunidas no Hotel Praia até 20 de Setembro, num seminário metodológico que procura fechar o projecto. Rosa Silva, coordenadora-geral, situou em 2026 o fim da fase de elaboração dos textos. A deslocação a São Tomé teve um propósito prático: tratar, volume a volume, do material acordado em encontros anteriores. Nazaré de Ceita, coordenadora nacional, reconheceu a dificuldade de articular países, equipas e realidades documentais tão distintas, e classificou como uma honra acolher uma iniciativa desta envergadura. Cada país viveu a sua luta de forma singular. Mas há memórias e ideais que os uniram, e é essa dimensão colectiva que confere peso ao trabalho.
A abertura contou com a ministra da Educação, Cultura, Ciência e Ensino Superior, Isabel D’Abreu, que descreveu o projecto como uma aspiração antiga finalmente concretizada. A governante sublinhou que o país não acolhe apenas uma reunião de trabalho, mas um projecto de memória e de afirmação da capacidade nacional de investigar, interpretar e inscrever a própria história. A ideia ganhou forma em 2021, durante uma conferência da CPLP, por iniciativa dos então Presidentes de Cabo Verde, Pedro Pires, e de Angola, João Lourenço, na presença do chefe de Estado são-tomense, Evaristo Carvalho. Desde o arranque, a preocupação foi uma só: registar a história da luta de libertação dos territórios sob domínio colonial português, para o presente e para as gerações futuras.
O programa não se ficou pela investigação. A actuação do músico são-tomense Guilherme Carvalho prendeu a atenção dos participantes, e o Tchiloli — manifestação teatral de forte peso no património do arquipélago — encerrou a componente cultural do encontro. Os três volumes, segundo o Telanon, abrangerão diferentes períodos e dimensões dos processos de libertação, com recurso à análise documental e ao cruzamento de fontes históricas.


