Metade dos casos suspeitos de mpox (anteriormente conhecida como varíola dos macacos ou monkeypox) contabilizados na Guiné-Bissau envolve crianças com menos de 15 anos, a maioria delas bebés e crianças até aos quatro anos — o grupo em que o vírus provoca as complicações mais graves. É neste enquadramento que o país enfrenta o primeiro surto da doença de que há registo, declarado a 4 de julho pelo Ministério da Saúde Pública e agora no centro de uma resposta de emergência que mobiliza também agências humanitárias internacionais.
Os registos apontavam, em agosto, para 46 casos suspeitos e sete infecções confirmadas, todas em adultos e sem qualquer óbito. Balanços mais recentes da Organização Mundial da Saúde elevam o total para perto de 60 suspeitos e mais de uma dezena de casos confirmados em laboratório, embora as autoridades admitam que a fragilidade da vigilância esconde uma parte do problema. A sequenciação genética atribuiu o surto à estirpe do clade IIb, a mesma que circula em países vizinhos como a Nigéria, a Serra Leoa e a Guiné-Conacri. Os doentes confirmados, concentrados no Sector Autónomo de Bissau e na região de Biombo, não têm ligação conhecida entre si, o que reforça a suspeita de cadeias de transmissão comunitária a avançar sem serem detectadas.
A ausência de casos confirmados entre menores não tranquiliza os pediatras. O mpox manifesta-se por lesões cutâneas dolorosas, febre, dores musculares e gânglios inchados, mas nas crianças pequenas o risco de complicações graves, de infecções bacterianas secundárias e de sequelas prolongadas é bem maior. A reabertura das escolas primárias e secundárias em setembro agrava o quadro. Por se transmitir sobretudo através do contacto físico próximo, do toque directo nas lesões e da partilha de objectos, o vírus pode transformar salas de aula sobrelotadas em focos de propagação, na ausência de rastreios rigorosos à entrada.
No terreno, as equipas de saúde comunitária lançaram campanhas de sensibilização porta a porta, mas o esforço de contenção esbarra na falta de meios. O UNICEF, que acompanha a resposta ao lado da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde Pública, reforçou a vigilância, o rastreio de contactos, o controlo de infecções e as medidas de saneamento nas unidades de saúde. «Com detecção precoce, cuidados e prevenção, o mpox pode ser controlado e a sua propagação reduzida», resumiu Sandra Martins, representante adjunta do organismo na Guiné-Bissau. Para colocar de pé os pilares essenciais da intervenção — de kits básicos de higiene a ferramentas de diagnóstico e rastreio para as clínicas locais — o apelo é de mais de 150 mil dólares em financiamento de emergência, considerado urgente para proteger as populações mais expostas.

