O apoio económico da China a Cuba mantém-se contido apesar dos laços históricos e ideológicos que aproximam os dois países, numa altura em que a ilha das Caraíbas atravessa uma das mais graves crises das últimas décadas. A cautela de Pequim, traduzida em gestos pontuais de solidariedade e em doações estratégicas em vez de uma intervenção financeira de larga escala, reflecte um cálculo geopolítico que tem em conta a relação com os Estados Unidos e a actual orientação da política industrial chinesa. Segundo informações divulgadas pela BBC, esta postura tem suscitado interrogações sobre os limites de uma aliança frequentemente descrita pelo presidente chinês, Xi Jinping, como uma relação entre “boas irmãs, bons camaradas, bons amigos”.
A ligação entre os dois países permanece sólida no plano político e ideológico, com Cuba a desempenhar o papel de um dos principais interlocutores chineses na América Latina. No quadro actual de crise, agravado pelas ameaças de sanções norte-americanas sobre o envio de petróleo para a ilha, Pequim enviou cerca de 60 mil toneladas de arroz e 80 milhões de dólares destinados à melhoria das infra-estruturas energéticas. O investimento chinês tem incidido sobretudo no sector das energias renováveis, com a instalação de parques fotovoltaicos a transformar rapidamente o panorama energético cubano. De acordo com dados do Centro de Estudos Energéticos Ember, citados pela BBC, o valor das importações cubanas de painéis solares e baterias provenientes da China aumentou mais de 1.800% entre 2020 e 2025, colocando a ilha entre os territórios com a transição solar mais acelerada do mundo.
Especialistas ouvidos pela BBC sublinham, contudo, que o apoio efectivo permanece limitado quando comparado com o discurso de solidariedade. Helen Yafe, académica da Universidade de Glasgow, recorda que Pequim tem sido vocal na condenação das acções norte-americanas e na defesa do direito de Cuba a um sistema económico e político próprio, ainda que na prática esse apoio se traduza em medidas contidas. Margaret Meyers, responsável pelo Programa Ásia e América Latina do Inter-American Dialogue, em Washington, observa que a China adopta uma posição claramente mais cautelosa do que outros aliados de Havana, como a Rússia e a Venezuela. Cuba está, aliás, longe de figurar entre os maiores parceiros comerciais chineses na América Latina, sector dominado pela Argentina, pelo Brasil e pelo Chile, sendo que as exportações cubanas de níquel e zinco para o gigante asiático caíram cerca de 600 milhões de dólares entre 2017 e 2022, segundo dados da The World Integrated Trade Solution.
A leitura estratégica desta postura passa, em larga medida, pelo equilíbrio que Pequim procura manter com Washington. Emily Morris, investigadora do Instituto das Américas da University College London, defende que a China não tenciona repetir o papel desempenhado pela antiga União Soviética, evitando canalizar capital de forma indiscriminada para a ilha numa fase em que dispõe de menos recursos disponíveis para investimentos globais e necessita de aplicá-los de forma mais selectiva. A política norte-americana, sintetizada na fórmula “América para os americanos”, procura limitar a influência estrangeira na região, e qualquer gesto de maior envergadura por parte de Pequim em direcção a Cuba seria facilmente interpretado em Washington como uma provocação directa. Sob a liderança de Xi Jinping, as afinidades ideológicas parecem ceder terreno à disputa pela hegemonia global, com a relação estratégica com a Rússia a assumir maior centralidade do que a expansão de uma rede de aliados comunistas pelo mundo, num enquadramento em que a solidariedade declarada a Havana convive com uma prudência cada vez mais marcada.


