Por cada dólar que Angola gera com a venda de produtos do PRODESI ao estrangeiro, precisa de desembolsar cerca de 17 para comprar bens lá fora. É esta a desproporção que marca o primeiro semestre de 2026 e que continua a expor a dependência da economia angolana face ao mercado internacional, mesmo depois de um salto expressivo nas exportações.
Em valor, as vendas ao exterior aumentaram 71%, passando de 39,5 milhões de dólares no primeiro semestre de 2025 para 67,8 milhões nos primeiros seis meses deste ano — mais 28,3 milhões. Os números resultam de cálculos do jornal Expansão a partir de dados da Administração Geral Tributária (AGT). O crescimento parece animador. A leitura, porém, é bem mais complexa.
As exportações representam apenas 6% dos 1,14 mil milhões de dólares gastos em importações. São, portanto, 17 vezes inferiores àquilo que o país compra ao exterior. A distância entre o que Angola vende e o que adquire mantém-se demasiado grande para que se possa falar numa substituição de importações com peso real na balança comercial. A diversificação começa a dar sinais. Mas avança a um ritmo insuficiente perante a dimensão da procura interna.
Há um dado que merece atenção: a subida do valor exportado não foi acompanhada por um aumento das quantidades. Pelo contrário. Nos primeiros seis meses, Angola exportou 125,4 mil toneladas, menos 63% do que as 338,4 mil toneladas registadas no mesmo período de 2025 — uma quebra de 212,9 mil toneladas.
Na origem desta descida está, sobretudo, o varão de aço, historicamente o produto que mais tem contribuído para as exportações do programa. As vendas deste material afundaram 94%, para 18,7 mil toneladas, gerando um encaixe de apenas 11,6 milhões de dólares.
Outros produtos seguiram caminho inverso, e com força. A farinha de milho saltou de 4,2 mil para 27,1 mil toneladas, um crescimento de 542%, com o valor exportado a subir 283%, para 14,9 milhões de dólares. A farinha de trigo aumentou 253% em volume e 488% em valor. Os ovos dispararam 753% em quantidade e 3.874% em valor. E o feijão passou de meras 2,2 toneladas para 4.882.
Ainda assim, a balança comercial dos produtos abrangidos pelo PRODESI permanece deficitária. Regista uma ligeira melhoria face a 2020, quando o fosso a favor das importações era 38 vezes maior. A melhoria existe, mas o país continua a importar mais e a gastar mais do que no arranque do programa. Em 2020, as importações de bens abrangidos totalizaram 1,8 mil milhões de dólares; no ano passado, chegaram a 2,3 mil milhões. Tudo isto num país cuja população cresce, em média, 3% ao ano, com uma produção nacional que sobe mas continua aquém da procura.
A realidade percebe-se nos supermercados. Muitos produtos nacionais têm presença limitada nas prateleiras e, em vários casos, são importados que apenas passam por embalamento ou transformação local. Essa insuficiência da oferta interna acaba por pressionar os preços, mesmo com a inflação em queda — recuo que se explica, em parte, pelo controlo administrativo da taxa de câmbio.
Criado em julho de 2018, o PRODESI demorou a arrancar. Só a partir de 2020 a AGT começou a reunir dados sobre a importação e exportação de mercadorias enquadradas nos objectivos do programa, concebido para reforçar a produção nacional.
A diversificação da economia está a acontecer, é certo, mas devagar e ainda insuficiente para as necessidades do país. No mesmo período, as importações recuaram 9%, para 1,1 milhões de toneladas — menos 110,8 mil toneladas do que no primeiro semestre de 2025. Em valor, contudo, a redução foi quase nula: o país gastou cerca de 1,1 mil milhões de dólares, praticamente o mesmo montante do período homólogo. A quebra do volume importado não se traduziu numa factura cambial mais leve, sinal de que a dependência externa continua a pesar sobre a economia. E há bens essenciais da cesta alimentar em que a compra ao exterior não pára de crescer, como o frango, segundo o jornal Expansão.


