A segurança de quem caminha pelas ruas do Luxemburgo estará no centro de uma marcha esta sexta-feira, 2 de Outubro, na capital, promovida pela Ask for Angela Luxembourg sob a mensagem «Women should be able to walk without fear». A iniciativa começa às 18h15 junto ao antigo Hôtel des Postes, em Hamilius, e pretende chamar a atenção para o assédio de rua, as agressões e o sentimento de insegurança que afecta sobretudo as mulheres. «Quando as mulheres puderem sentir-se seguras a caminhar, sabemos que todos se sentem seguros», afirma Terri Allington, responsável pela iniciativa no Luxemburgo, em entrevista exclusiva ao Lëtzebuerg Hoje.

A marcha foi propositadamente pensada para ser curta. O percurso parte da zona de Hamilius, segue pela rue Philippe II e atravessa o centro da cidade até terminar junto à Câmara dos Deputados. A organização calcula que o trajecto possa ser feito em cerca de 11 minutos a um ritmo normal, embora demore naturalmente mais com o grupo. A escolha da data também não é casual: 2 de Outubro assinala o Dia Internacional da Não-Violência. «Não vamos ficar horas parados. Vamos caminhar e depois as pessoas podem aproveitar a sua sexta-feira», explica Allington. O objectivo é simples: reunir o maior número possível de participantes e tornar visível o problema.
E não é uma marcha exclusivamente feminina. Homens, crianças e famílias são convidados a participar — até os cães são bem-vindos, diz Allington. A mesma lógica está na base da Ask for Angela: qualquer pessoa que se sinta ameaçada ou insegura pode recorrer ao código, independentemente do género. A presença da associação num evento Pride logo após o lançamento público foi, para a responsável, uma forma clara de mostrar essa abertura. «Ask for Angela é para toda a gente», sublinha.
A iniciativa chegou ao Luxemburgo depois de Allington ter conhecido o modelo britânico e, sobretudo, de ter identificado aspectos que poderiam ser melhorados. Britânica a viver no Grão-Ducado há 12 anos, recorda que gostaria de ter encontrado este tipo de apoio quando era mais nova e saía com maior frequência. «É difícil encontrar uma mulher que nunca tenha sido assediada numa saída à noite, que alguém nunca tenha agarrado ou algo semelhante», afirma. A motivação tornou-se também geracional: «Gostava que tivesse existido para mim. Por isso, trouxe-o para a próxima geração.»
A associação sem fins lucrativos foi registada em Fevereiro deste ano. Em Março começou a disponibilizar formação aos estabelecimentos e, em Julho, depois de reunir os primeiros parceiros, apresentou a iniciativa ao público. Em apenas alguns meses, 11 espaços aderiram ao projecto, sobretudo bares, embora o modelo abranja também restaurantes e discotecas. Eventos e festivais têm igualmente demonstrado interesse, segundo Allington.

O funcionamento assenta numa palavra-código discreta. Uma pessoa que se sinta ameaçada, incomodada ou em situação de risco num estabelecimento aderente pode simplesmente «perguntar pela Angela». Os funcionários previamente formados percebem que existe um pedido de ajuda e podem intervir de acordo com a situação. Para quem pede auxílio, o serviço é gratuito. Allington faz questão de desfazer uma ideia que, diz, já encontrou em contactos institucionais: os estabelecimentos também não são obrigados a tornar-se membros da associação para receber formação. «A formação é gratuita, independentemente disso. Para mim, essa é a parte mais importante.»
Há planos para levar esta rede para além da vida nocturna. Os testemunhos recebidos pela associação mostram, segundo a responsável, que muitos episódios acontecem durante o dia e nas próprias ruas. A intenção passa, possivelmente já no início do próximo ano, por alargar a Ask for Angela a outros pontos da cidade e envolver espaços como hotéis com recepção permanente. A ambição é criar uma malha de locais seguros onde alguém possa entrar quando percebe que está a ser seguido ou simplesmente não se sente em segurança.
Num país marcado pela diversidade linguística, a comunicação também foi adaptada. A Ask for Angela disponibiliza informação em diferentes línguas, incluindo português, uma opção particularmente relevante para a numerosa comunidade lusófona residente no Luxemburgo. Materiais destinados ao público e à formação dos estabelecimentos procuram fazer com que a palavra-código e o procedimento sejam reconhecidos por pessoas de diferentes origens.

O diálogo institucional está ainda numa fase inicial. Allington refere contactos e várias reuniões com a Cidade do Luxemburgo, embora sem resultados concretos até agora. No último fim-de-semana, teve também uma conversa com a ministra Yuriko Backes durante um evento Pride. Segundo relata ao Lëtzebuerg Hoje, a governante mostrou-se satisfeita por existirem mais vozes a falar sobre o problema. Allington reconhece que instituições e responsáveis políticos trabalham com cautelas próprias, mas deixa clara a prioridade da associação: transformar a sensibilização em medidas concretas.
A marcha desta sexta-feira será precisamente uma tentativa de transportar essa mensagem para a rua. Poucos minutos de caminhada, no coração da capital, para tornar visível uma realidade que muitas pessoas conhecem bem demais. A Ask for Angela quer homens e mulheres lado a lado. E quer, sobretudo, que pedir ajuda possa ser tão simples como perguntar por alguém chamado Angela.



