A ligação entre empresas do Luxemburgo e o mercado chinês continua a abrir possibilidades na inovação, na produção industrial, na tecnologia e no acesso a consumidores, num momento em que as relações económicas entre a Europa e a China enfrentam um contexto internacional mais complexo. É neste espaço que actua a ChinaLux — Câmara de Comércio China-Luxemburgo, uma associação criada em 2013 que procura aproximar profissionais e empresas dos dois países. Em entrevista ao Lëtzebuerg Hoje, o presidente, Jacques Bortuzzo, explicou o papel da organização e fez o balanço da recente missão económica a Hangzhou e Xangai, realizada entre 20 e 24 de Setembro e organizada pela Câmara de Comércio do Luxemburgo, sob a liderança do ministro da Economia, Lex Delles.
A ChinaLux apresenta-se como uma «plataforma neutra» para quem trabalha ou pretende trabalhar nas relações económicas entre os dois mercados. Segundo Bortuzzo, conta actualmente com cerca de 160 membros e procura preservar um equilíbrio entre associados chineses e de outras nacionalidades, tanto nos órgãos dirigentes como nas actividades. A mesma lógica é seguida entre empresas e membros individuais. Ou seja, não é necessário ser chinês nem representar uma empresa chinesa para integrar a organização.
Essa abertura deixa também espaço para a comunidade empresarial lusófona estabelecida no Luxemburgo. Empresários portugueses e de outros países de língua portuguesa com actividade no Grão-Ducado e interesse no mercado chinês podem aproximar-se da ChinaLux, participar na sua rede e avaliar uma eventual adesão. Para quem procura fornecedores, parceiros, oportunidades comerciais, contactos ou simplesmente uma melhor compreensão da realidade económica chinesa, a câmara pretende funcionar como ponto de encontro entre pessoas que já conhecem esse mercado e outras que começam agora a explorá-lo.
A actividade da ChinaLux combina encontros dedicados a sectores específicos com iniciativas de convívio empresarial. A indústria automóvel, a inteligência artificial e outros temas relevantes para os associados fazem parte da programação, enquanto as recepções do Ano Novo Chinês e os jantares de gala permitem desenvolver relações num ambiente menos formal. Para Bortuzzo, a utilidade da câmara vai além de colocar pessoas na mesma sala: passa por criar ocasiões para discutir questões concretas e conhecer a experiência de quem já trabalha entre os dois mercados.
A adesão pode ser feita por profissionais a título individual ou por empresas. Além do acesso à rede de contactos, tornar-se membro permite acompanhar mais de perto as actividades da ChinaLux e encontrar interlocutores com experiência nas relações económicas sino-luxemburguesas. Para um empresário lusófono que nunca trabalhou com a China, essa porta de entrada pode ser particularmente útil: não pressupõe que exista já um projecto de investimento ou uma operação naquele país. O interesse em conhecer o mercado e estabelecer relações pode ser o primeiro passo.
Treze anos depois da fundação, Bortuzzo reconhece que o contexto internacional se tornou mais complexo. Recorda que viveu na China entre 2005 e 2007, num período de forte interesse de estrangeiros em estudar, investir e desenvolver negócios no país, e considera que esse ambiente ainda era visível quando a ChinaLux nasceu. Hoje, perante as tensões geopolíticas, defende que o Luxemburgo e a Europa devem preservar a capacidade de dialogar e desenvolver relações económicas que beneficiem as suas populações.
É nesse enquadramento que interpreta a dimensão da recente missão. De acordo com os números apresentados na entrevista, participaram 108 pessoas: 12 na delegação oficial e 96 na delegação empresarial. Bortuzzo sublinha que se tratou de uma iniciativa da Câmara de Comércio do Luxemburgo, apoiada pela ChinaLux enquanto câmara bilateral acreditada. «Nós acompanhamos e apoiamos», explicou, distinguindo esta deslocação de uma missão organizada pela própria ChinaLux. Na sua leitura, a disponibilidade de tantos participantes para viajar durante uma semana demonstra o interesse das empresas luxemburguesas em conhecer a tecnologia chinesa e explorar possibilidades de cooperação.
Durante a visita, o presidente da ChinaLux moderou um painel sobre robótica e inteligência artificial em Hangzhou e outro sobre condução autónoma em Xangai, neste último caso centrado no transporte de mercadorias por camião. Para Bortuzzo, estas áreas ilustram a transformação da economia chinesa e o interesse que pode ter para empresas empenhadas em modernizar a sua actividade. O programa oficial da missão incidiu também na mobilidade inteligente, na logística, nas tecnologias limpas e na inovação digital, incluindo encontros empresariais e visitas a centros de investigação e unidades industriais.
Questionado sobre se já seria tarde para investir na China, respondeu: «Creio que nunca é demasiado tarde.» Recordou, a esse propósito, um encontro organizado pela ChinaLux com a FEDIL, no Bank of China, para apresentar experiências de empresas luxemburguesas com actividade no país. A iniciativa realizou-se a 1 de Junho e procurou dar a conhecer percursos de implantação, dificuldades e oportunidades a empresários que ainda não estão presentes naquele mercado. Segundo Bortuzzo, ouvir quem já produz ou desenvolve investigação na China permite avaliar possibilidades concretas para cada negócio.
O argumento para essa presença já ultrapassa, porém, a procura de mão-de-obra barata. «A China já não é apenas um centro de produção. É um mercado de consumo», afirmou. Na sua perspectiva, produzir localmente, empregar trabalhadores e participar na economia das comunidades onde uma empresa se instala facilita a aceitação e aproxima as marcas dos clientes. O princípio, sustenta, deve funcionar nos dois sentidos: para empresas europeias na China e para empresas chinesas na Europa.
Para os empresários lusófonos no Luxemburgo, a ChinaLux fica assim como uma porta que não está reservada aos grandes grupos ou a quem já conhece a China. Uma pequena ou média empresa interessada em perceber melhor aquele mercado pode aproximar-se da organização, conhecer os seus membros e participar nas actividades antes de decidir até onde pretende avançar. Num país onde diferentes comunidades empresariais se cruzam diariamente, Bortuzzo defende que manter esses canais de contacto é parte da resposta aos desafios económicos actuais. «Se fecharmos as portas, vamos ficar para trás», advertiu.



