O escândalo em torno do Banco Máster expôs ligações profundas entre o sector financeiro, os patrocínios desportivos e alguns dos maiores clubes do futebol brasileiro, num caso que envolve recursos de servidores públicos, instituições bancárias e empresas de apostas. Segundo o Jornal Tropical, as investigações sobre o banco de Daniel Vorcaro revelaram também uma presença significativa no universo desportivo, directa ou indirectamente, enquanto os efeitos da crise financeira atingiram entidades que mantinham contratos milionários com clubes.
O Flamengo surge no centro dessa teia através do patrocínio do Banco BRB, instituição que aplicou elevados recursos no Banco Máster. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconómicos indicam que as despesas do BRB com patrocínios cresceram 1.500% entre 2018 e 2023, passando de 7,68 milhões para 129 milhões de reais, montante equivalente a 63% do lucro anual do banco. Entre 2020 e 2023, o Flamengo recebeu mais de 153,18 milhões de reais, estando previsto um acréscimo de 40 milhões em 2024. A parceria originou ainda a plataforma digital Nação BRBFla, cujas perdas, de acordo com o Correio Braziliense citado pelo Jornal Tropical, chegaram a 455 milhões de reais até ao final de Junho, perante uma carteira activa de 433 milhões. Cerca de 25,9% dos empréstimos estavam em atraso há mais de 90 dias. O BRB também canalizou verbas para o automobilismo, apoiando Lucas Foresti, Enzo Elias e Gabriel Bortoleto.
As ramificações chegaram igualmente às apostas desportivas. Durante a Operação Compliance Zero, a Polícia Federal descobriu, segundo a mesma fonte, que Vorcaro era também proprietário da Pixbet, casa de apostas que patrocinou clubes do Brasileirão, entre os quais Cruzeiro e Flamengo. Em Outubro de 2024, período a que se referem comunicações reveladas pela investigação, a Pixbet já ocupava o espaço de patrocinador principal do Flamengo. A ligação terminou em meados do ano passado e a Betano assumiu posteriormente esse espaço. Também o Banco FICTOR, patrocinador do Palmeiras e interessado na aquisição do Banco Máster, suspendeu o patrocínio depois da divulgação do escândalo e acabou por entrar em recuperação extrajudicial. A crise levou ainda à liquidação de outras instituições, incluindo o Wil bank, pertencente ao conglomerado do Banco Máster.
O caso lança nova atenção sobre a dependência financeira do futebol brasileiro em relação a bancos e empresas de apostas, sobretudo perante os efeitos sociais associados ao endividamento das famílias e aos recursos destinados a aposentadorias e pensões de servidores públicos. Segundo o Jornal Tropical, a dimensão alcançada pelo escândalo coloca em discussão a sustentabilidade do actual modelo de financiamento do futebol e a exposição dos clubes a patrocinadores cuja situação financeira pode deteriorar-se rapidamente.



