Um vídeo de poucos segundos bastou para transformar um episódio de atendimento consular numa condenação pública nas redes sociais. As imagens, gravadas e divulgadas sem autorização, tornaram-se virais e geraram uma avalanche de comentários sobre o que se passou na Embaixada de São Tomé e Príncipe, em Lisboa, na segunda-feira, 14 de Setembro. Muitos emitiram juízos mas poucos conheciam os bastidores.
Segundo o relato publicado pelo portal são-tomense Telanon, os factos merecem mais elementos do que a gravação revela. A embaixada abriu portas às 8h30 e não há registo do autor do vídeo nas imediações antes das 8h40, quando entrou nas instalações sem marcação prévia. Ainda assim, o chefe da portaria autorizou-lhe uma audiência com o responsável consular, para obter informações. O incidente ocorreu no gabinete deste responsável. A colaboradora que aparece nas imagens é chefe de serviço e, naquela manhã, assegurava sozinha o funcionamento de três gabinetes — o 5, o 6 e o 7 —, tendo entrado no espaço de um colega para o cumprimentar e pedir um parecer.
O embaixador Esterline Gonçalves Género, autor do texto, admite que a reacção da funcionária possa ser discutida e compreende quem a critique. O que contesta é outra coisa: o julgamento feito sem conhecer as circunstâncias que antecederam aquele momento. Alguns comentários foram longe demais. Preocupa-o sobretudo que a discordância legítima tenha resvalado para a incitação à violência e para associações políticas sem fundamento. A reflexão, conta, nasceu de duas horas e meia passadas a 16 de Setembro na sede do KAICIID, o Centro Internacional para o Diálogo, em Lisboa.
Rever uma opinião perante novos factos não é fraqueza. É maturidade. É esse o apelo deixado a quem comentou, partilhou ou condenou. À comunidade lusófona, o embaixador pede compreensão para um serviço prestado com recursos humanos reduzidos e limitações várias, sem deixar de reconhecer que há sempre margem para melhorar. Um vídeo pode inflamar uma multidão, mas não substitui a verdade. Todo o espectáculo tem um fim, a cortina fecha-se e as luzes apagam-se — só que as consequências de um juízo precipitado perduram muito depois de o público se retirar.


