Vinte exposições individuais ao longo de quatro décadas confirmam a solidez de um percurso raro no panorama artístico angolano. A mais recente, intitulada «Nsinga ya Mfumu», está patente na Galeria D’Maio, na Universidade Nacional de Artes Plásticas (UNAP), até ao dia 26 deste mês. O título, em kicongo, significa «a mão do mestre». E resume bem aquilo que o artista plástico Matondo Alberto quis assinalar: o orgulho de ver os alunos a repetirem as técnicas que lhes ensinou.
Iniciada em 1976, em Kinshasa, a pintura tornou-se para Matondo um território de constante reinvenção. Em declarações ao Expansão, o artista contou que consegue reconhecer, à distância, um quadro saído das mãos de um antigo aluno — como Zeca, hoje conhecido pelo domínio da pintura sobre veludo. O regresso à Galeria D’Maio tem, para si, um peso simbólico. Foi ali que expôs a solo pela primeira vez, em 1984, num espaço que frequenta desde 1979. O apoio da nova direcção da UNAP, sublinhou, foi decisivo para que a mostra avançasse.
A maioria das obras em exibição nasceu em 2023, ano em que a criação fluiu com invulgar rapidez. Depois de um longo interregno provocado pela falta de material, o artista retomou o trabalho com o apoio da Galeria Tamar Golan e concluiu onze telas para esta exposição. Entre elas destaca-se «As adolescentes africanas», dedicada à complexidade dessa fase da vida. A mensagem é directa: paciência e atenção. Matondo defende que os pais devem acompanhar os mais novos, e não abandoná-los, num tempo marcado pelo imediatismo.
Por detrás dessa reflexão está uma preocupação social que o artista não esconde. A escassez de escolas e as dificuldades financeiras condenam muitos jovens a dividir os estudos com o trabalho — e outros, lembrou, sobrevivem no lixo. É neste ponto que a sua obra ganha outra dimensão. Mais do que estética, a arte assume aqui uma função educativa e transformadora, capaz de olhar de frente aquilo que a sociedade prefere ignorar.


