Condições de trabalho análogas à escravidão continuam a sustentar sectores inteiros da economia brasileira. A mais recente vaga de fiscalizações libertou dezenas de trabalhadores migrantes, entre os quais cidadãos da Guiné-Bissau, no âmbito da chamada Operação Resgate VI. Ao todo, 66 migrantes — oriundos da Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Burkina Faso, Senegal e Guiné-Bissau — figuram entre os resgatados. A força-tarefa, apoiada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público do Trabalho, realizou 231 acções fiscais.
A região sudeste concentrou o maior número de libertações: 267 trabalhadores, dos quais 208 apenas em Minas Gerais e 58 em São Paulo. Um dos casos mais chocantes é o de uma mulher de 51 anos que vivia na casa da empregadora desde os dez anos de idade. Durante cerca de quatro décadas assegurou toda a lida doméstica — roupa, limpeza, refeições — sem qualquer registo oficial nem salário. De acordo com a Deutsche Welle, terá ainda trabalhado, também sem vínculo formal, numa clínica pertencente a um familiar dos patrões.
Numa fazenda de Minas Gerais, os auditores encontraram trabalhadores na colheita manual de batata, privados de instalações sanitárias, água potável e equipamento de protecção. A maioria era senegalesa ou natural do Burkina Faso. No conjunto das operações, o meio rural representou 57,5% das fiscalizações e 292 resgates, enquanto as actividades urbanas somaram 36,5% e 178 libertações; o trabalho doméstico, quase sempre invisível, gerou nove. A construção civil e o cultivo de café, cebola e batata concentraram os números mais elevados.


