O funaná perdeu uma das suas vozes mais reconhecíveis, e foi ao som desse mesmo género que uma multidão se juntou, este domingo, para a última despedida. Bino Branco foi sepultado no cemitério da Várzea, entre funaná, batuco e tabanca, num ambiente de choros e aplausos emocionados. Carlos Alberto Pereira Lopes — o nome de baptismo do artista — morreu a 27 de agosto, nos Estados Unidos, onde estava em tratamento médico havia cerca de um ano. Tinha 56 anos. Fundador e uma das principais vozes dos Ferro Gaita, deixou à sua volta uma vasta moldura humana: músicos da tradição cabo-verdiana, familiares, amigos e figuras da cultura, segundo o Expresso das Ilhas.
A urna chegou à Cidade da Praia na noite de sábado, trasladada dos Estados Unidos, e foi acompanhada desde a residência do músico, no bairro da Calabaceira, até ao cemitério da Várzea. Pelo caminho, um atrelado transportava os Ferro Gaita — o agrupamento que Bino fundou em 1996 ao lado de Eduíno e Paulino Preto. Eduíno puxava a gaita. Interpretaram «Bino Branco», «Fundu Baxu» e «Rei di Tabanca», temas que ficaram colados à figura do malogrado artista. Grupos de tabanca e de batuco somaram-se ao cortejo, a tocar e a dançar à porta e dentro do recinto. Na cerimónia realizada na Câmara Municipal da Praia, familiares, autoridades e amigos recordaram-no. «Uma perda irreparável», resumiu o irmão, Domingos Lopes, descrevendo uma família mergulhada em «dor intensa, mágoa e tristeza».
Poucos nomes estão tão ligados ao ferrinho como o seu. A voz marcante fez dele uma das figuras maiores do funaná contemporâneo, mas foi o ferrinho — ao lado da gaita e do acordeão diatónico, a base sonora do género — que o transformou numa referência sempre que se fala deste instrumento na música cabo-verdiana.
O percurso começou cedo, em grupos juvenis como o Grupo Djassy, onde brilhou como vocalista. Depois da dissolução da banda, em 1991, mudou-se para a Brava e tornou-se presença habitual nas noites da ilha. Cinco anos volvidos, juntou-se a Eduíno Tavares e a Paulino Preto para erguer os Ferro Gaita, num tempo em que os teclados dominavam o funaná e a gaita e o ferrinho pareciam arredados. «Fundu Baxu», o primeiro álbum, saiu em 1997 e conquistou Cabo Verde e a diáspora. Foram mais de três décadas a fazer do grupo uma das bandas mais influentes da história da música cabo-verdiana.


