Um envelope de 67 milhões de meticais vai financiar acções de protecção infantil em Mabalane, Chókwè e Guijá, na província de Gaza, onde pelo menos 16 mil crianças vivem em situação de grande vulnerabilidade. As cheias agravam tudo. A somar a estes factores, práticas culturais continuam a empurrar menores para uniões prematuras e para longe da escola, num quadro que o Governo e vários parceiros procuram agora inverter.
A história de Joana — nome fictício — resume o peso dessa realidade. Há seis anos, a infância foi-lhe interrompida: saiu da escola para trabalhar nas machambas e, pouco depois, foi forçada a uma união prematura. «Não quiseram entender que eu devia estudar e, por isso, impediram-me de ir à escola para trabalhar nas machambas. Assim, de manhã, ia capinar e depois voltava para casa», conta. Seguiram-se seis anos de agressões físicas e verbais, suportados em silêncio por receio das consequências para o marido. «Sofria violência sem razão. Fiquei seis anos naquele lar e tinha medo de denunciar o meu marido à Polícia, porque receava que ele fosse detido», relata. Afastada dessa vida, quer voltar a estudar: «Desejo falar português como as outras pessoas, mas não consigo porque não estudei. O meu sonho é ser enfermeira, para poder cuidar dos outros.»
O caso não é isolado. Na zona de Combomune Rio, em Mabalane, residentes denunciam a persistência de uniões que envolvem menores, com as próprias famílias muitas vezes apontadas como parte do problema. De acordo com o jornal O País, autoridades e organizações de defesa dos direitos da criança identificam aspectos culturais que ainda pesam nessas decisões. «Pelo menos 70 menores foram resgatadas de uniões prematuras, numa realidade em que algumas famílias entregam as filhas em troca de três cabeças de gado», referiu o Governo Provincial. As cheias fazem o resto. Em Chókwè, Balbina Sebastião descreve a destruição: «As nossas casas foram arrastadas pelas enxurradas e ficámos sem lugar para dormir. As crianças passam fome e, por causa disso, abandonaram a escola. Pedimos material escolar para que possam voltar a estudar.»
A resposta passa por chegar às comunidades antes que o pior aconteça. Os 67 milhões de meticais deverão custear campanhas de sensibilização, registo de menores e medidas de prevenção e mitigação da violência contra crianças. «A aposta passa por identificar situações de risco nas comunidades e intervir antes que a vulnerabilidade se agrave, envolvendo autoridades, famílias e agentes comunitários», avançou Luís Paulo, parceiro do governo. Em seis comunidades de Guijá, Chókwè e Mabalane, o projecto prevê ainda actividades educativas, culturais e recreativas para que as próprias crianças aprendam a conhecer e a reclamar os seus direitos.


