Carregar livros pelos corredores e pelas salas de aula tornou-se raridade — e é dessa constatação que nasce um apelo tão simples quanto teimoso: «Carreguem Livros!». A palavra impressa quase desapareceu do quotidiano académico. Regressa apenas em vésperas de exames ou na entrega de trabalhos. Contra essa maré, propõe-se transformar o gesto de transportar obras num hábito de todos os dias.
As explicações para o recuo variam. Há quem invoque o peso de livros e revistas; outros apontam as alternativas de leitura nos dispositivos electrónicos; e há ainda quem admita que a era digital instalou a dispersão como modo de vida. A página de papel cedeu lugar aos ecrãs, grandes e pequenos. A observação, de acordo com o Jornal da USP, parte de um professor da maior universidade da América Latina, frequentemente colocada entre as cem melhores do mundo. Historiadores do livro sublinham, há décadas, o peso da mediação editorial na forma como se lê; neurocientistas lembram que escrever à mão é operação bem mais complexa do que carregar em teclas.
Mostrar, emprestar e transportar livros é uma das formas mais eficazes de contagiar quem lê — e também quem ainda não lê. A ideia é que a proposta se torne postura corrente, dentro e fora do trabalho, e chegue a espaços tão diferentes como a universidade e a empresa, o hospital e a padaria, a fábrica e o estádio. Nada de solenidade. Um gesto despretensioso, repetido, capaz de tornar a leitura visível.
Levar livros para o dia-a-dia estimularia a curiosidade das crianças e alimentaria a conversa entre adultos, à hora do café. Certas obras, como certos filmes, alargam a maneira de olhar o mundo e chegam a mudar-lhe o sentido. Riobaldo, o narrador de «Grande Sertão: Veredas», de João Guimarães Rosa, resume-o assim: «o mais importante do mundo é que as pessoas não estão prontas e vão sempre mudando, afinando ou desafinando». Fica o apelo: «Carreguem Livros!».


