Cantar realidades para educar — e não apenas para entreter — é a linha que separa a boa música do resto, na leitura do veterano angolano Pedro Cabenha. «O artista é um espelho, ele deve cantar músicas construtivas para educar a sociedade», resume, em entrevista ao jornal Expansão, o intérprete de «Michel» e «Adiakimi». As letras, garante, nascem do quotidiano. Compõe desde 1973.
O regresso à ribalta chega por convite de Dimbo Makiesse, para o concerto «Bebop and Jazz», no Hotel Epic Sana, onde divide o palco com Carlos Praia, Denalta Praia, Jorge Mulumba e Miqueias Ramiro. Não é coisa frequente. Cabenha admite ter feito poucas actuações nos últimos tempos e sente que precisa de aparecer mais. «Um músico com poucos trabalhos de sucesso no mercado não ganha notoriedade», sustenta.
A trajectória vem de longe. Entre 1984 e 1993 integrou o grupo «Os Proletários da EDAL», a convite de Domingos Franco Vieira, o Nini Franco, e tornou-se uma das vozes principais do colectivo. Seguiu-se uma pausa: regressou à terra natal, no Ícolo e Bengo, para trabalhar no campo por razões socioeconómicas. A carreira a solo só arrancou em 2008 e conta hoje com quatro obras — «Ndaie Ué» (2011), homenagem ao músico Adriano Diogo da Silva, «Nzoji Yami», do mesmo ano, «Mamã Sessá» (2013) e «Mgambi» (2021).
Semba, sobretudo, mas também rumba, kizomba e sonoridades folclóricas — é neste território que se move. Guarda ainda um lote de canções por explorar, antigas, que muitos tomariam por inéditas. Para o próximo ano promete material novo, embora a prioridade continue a ser dar vida ao que já tem. A régua, essa, não muda: «O músico deve cantar de modo a tocar a alma das pessoas.» Fora disso, defende, não há verdadeiramente música.


