Uma tragédia marítima ocorrida há mais de oito décadas está no centro da obra distinguida com o Prémio Literário Baltasar Lopes 2026. Chama-se «O Último Veleiro» e é da autoria de Nelson Colin Miranda, escritor natural da ilha Brava. O romance recupera o naufrágio do navio Matilde e transforma-o em literatura. Não é apenas uma história de mar. É, sobretudo, uma história de partida.
Para o autor, a distinção ultrapassa o plano individual. Miranda dedicou o prémio à população do seu concelho, com especial evocação dos 53 homens que perderam a vida naquela travessia. «Quando temos um prémio a nível nacional, é claro que o prémio é para toda a comunidade», sublinhou, em declarações à agência Inforpress citadas pelo portal cabo-verdiano Bravanews. Falou de uma ilha que «normalmente fica para trás». E de uma emoção que, confessou, não encontra palavras.
O Matilde partiu da Brava a 27 de Agosto de 1943. Levava a bordo gente que fugia da fome e das agruras da Segunda Guerra Mundial. Muitos não chegaram. A partir desse facto histórico, o escritor teceu uma reflexão mais ampla sobre a emigração e sobre aquilo que descreveu como «essa sina do povo cabo-verdiano em querer emigrar desde sempre». O drama da separação atravessa toda a obra, como uma corrente submersa.
O ano tem sido intenso para Miranda, que em Janeiro estreou-se na ficção com «Amor a Preto e Branco» e prepara já um novo título. Ainda pouco conhecido do grande público, o autor desvalorizou a vertente financeira da distinção e realçou a projecção que ela poderá dar à sua carreira. «O Último Veleiro» é, nas suas palavras, «a coroa» de anos de trabalho. O Prémio Literário Baltasar Lopes 2026 é atribuído pelo Ministério da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto, através do Instituto da Biblioteca Nacional, em parceria com a Cabo Verde Telecom, com o objectivo de incentivar a criação literária nacional.


