Perto de 69.000 toneladas de roupa, calçado e têxteis escaparam ao lixo desde 1974 e transformaram-se em apoio concreto a comunidades desfavorecidas — de salas de aula a redes de água potável —, sobretudo em África. Por detrás deste número está uma recolha que volta a percorrer as ruas do Grão-Ducado já em setembro.
A campanha é conhecida pelo nome luxemburguês «Aktioun Aalt Gezai» e é organizada pela Kolping Luxembourg, associação sem fins lucrativos fundada em 1961. Tudo começou em 1974. Na altura, as grandes organizações recusaram a parceria, convencidas de que a iniciativa estava condenada ao fracasso. Enganaram-se. Logo nessa primeira edição, em setembro de 1974, foram recolhidas 538 toneladas de vestuário — um arranque que definiu meio século de trabalho.
Desde então, a recolha realiza-se todos os anos, durante um fim-de-semana, em todo o território. Milhares de voluntários, associações e, cada vez mais, as próprias administrações comunais garantem a distribuição de sacos e o transporte da mercadoria. O país está dividido em quatro zonas — norte, este, centro e sul —, cada uma com o seu calendário próprio por comuna. A par das jornadas de rua, a associação mantém desde 1991 um parque de contentores cor-de-laranja espalhados pelo Grão-Ducado, esvaziados com regularidade, para quem quiser doar fora das datas anunciadas.
O percurso do vestuário recolhido é longo e minucioso. Os têxteis são entregues à FWS, empresa sediada em Brema, na Alemanha, parceira da associação há quase cinquenta anos. Dali seguem de camião para os centros de triagem do grupo Boer, casa-mãe da FWS, onde passam por várias fases de separação manual feita por pessoal especializado. Cada peça é avaliada ao pormenor. Estado de conservação, marca, corte masculino, feminino ou infantil, roupa de inverno ou de verão, necessidades climáticas, culturais e religiosas — tudo conta. Deste crivo saem mais de 300 variedades distintas, organizadas para responder à procura do mercado mundial de vestuário reciclado.
Os números do aproveitamento são expressivos. Cerca de 60% dos têxteis ganham uma segunda vida no pronto-a-vestir. Outros 30% servem como matéria-prima secundária. Menos de 10% são considerados irrecuperáveis. As peças sem saída comercial não acabam necessariamente no lixo: parte segue para o centro de reciclagem Frankenhuis, também do grupo Boer, onde é convertida em produtos de isolamento para a indústria automóvel e de electrodomésticos; outra parte transforma-se em panos de limpeza. Só os têxteis verdadeiramente não recicláveis são incinerados, com recuperação da energia libertada.
Há um enquadramento legal por trás desta lógica. O elevado consumo de água na produção de vestuário novo levou a Comissão Europeia a impor a reciclagem sistemática de roupa usada e a reutilização de fibras no fabrico de novos tecidos. A recolha luxemburguesa insere-se nessa exigência ambiental, e a qualidade do vestuário do Grão-Ducado é particularmente apreciada pelos operadores do sector.
O destino dos fundos é aquilo que dá sentido a todo o esforço. Com o dinheiro angariado, a Kolping Luxembourg financia projectos sociais e humanitários dentro e fora do país. No plano internacional, conta com o apoio financeiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros luxemburguês. A lista de intervenções é vasta: a ampliação e o equipamento de uma escola primária em Musonoie, na província do Lualaba, na República Democrática do Congo; um projecto agrário no Ruanda que abrange 19 aldeias ao longo de cinco anos; a construção de escolas e de uma carpintaria, a reabilitação de redes de água e o apoio à criação de gado na região de Kanzenze, também no Congo.
A associação deve o nome a Adolph Kolping (1813-1865), filho de um pastor, sapateiro de profissão antes de se tornar padre, pedagogo e reformador social. No Luxemburgo, a história do movimento cruza-se com figuras marcantes do país, como o antigo ministro de Estado Paul Eyschen, a família Pescatore, Henri Funck e o compositor nacional Laurent Menager. A sede permanece em Linger.
Para quem quiser participar, o gesto é simples: separar a roupa que já não usa e entregá-la durante o fim-de-semana da recolha, na zona correspondente, ou depositá-la a qualquer momento num dos contentores cor-de-laranja. Meio século depois da primeira jornada, cada saco continua a somar-se a uma conta que já vai em dezenas de milhares de toneladas.
Para saber a data de recolha na zona onde vive, visite este link e escolha a zona de residência.


