A abertura de uma representação consular do Grão-Ducado em São Paulo foi o anúncio de maior alcance do 3.º Encontro das Famílias Luxemburguesas, que reuniu cerca de 150 participantes e assinalou uma nova etapa na ligação entre a comunidade luxemburguesa do Brasil e o país dos seus antepassados. A novidade foi avançada pela encarregada de negócios da Embaixada de Luxemburgo em Brasília, Jill Engel, e pelo chefe de missão adjunto, Steve Hoscheit, numa edição que contou, pela primeira vez, com a presença oficial da representação diplomática do Grão-Ducado.
O encontro decorreu a 18 de julho, em São José, no estado de Santa Catarina, promovido pela Associação de Cidadãos Luxemburgueses no Brasil (ACLUX). Juntou 129 pessoas presencialmente e mais de uma dezena a acompanhar em linha, de acordo com Roberto Alff, presidente da ABC Lux, que participou nas sessões dedicadas ao empreendedorismo. Data de inauguração? Ainda não há mas o novo posto deverá alargar o atendimento aos cidadãos luxemburgueses residentes no país.
Jill Engel enquadrou o anúncio num momento particularmente favorável das relações bilaterais e recordou a visita oficial do ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Mauro Vieira, ao Luxemburgo, em junho — a primeira de um chefe da diplomacia brasileira ao Grão-Ducado.
O peso da comunidade ajuda a explicar o entusiasmo. «Somos mais de 33 mil luxemburgueses reconhecidos no Brasil, mas sabemos que esse número é ainda maior», afirmou a presidente da ACLUX, Luciana Decker, para quem o programa foi desenhado a ouvir os associados, com destaque para a cidadania, a educação, os negócios e a valorização da história comum. A maior concentração desses cidadãos está em Santa Catarina, segundo a cônsul honorária de Luxemburgo no estado, Karen Schwinden. «De 2021 para cá, já entreguei mais de 5.600 passaportes», contabilizou.
A dimensão económica também marcou presença. O governo catarinense fez-se representar pelo secretário-adjunto de Articulação Internacional, Emerson Pereira, pelo secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, Fábio Pinto, e pelo presidente da Associação Catarinense de Tecnologia, Diego Brites. Para Emerson Pereira, o Grão-Ducado funciona como porta de entrada para a União Europeia e abre oportunidades às empresas catarinenses que procuram internacionalizar-se.
Boa parte da programação respondeu a dúvidas concretas de quem conquista a nacionalidade. A advogada Veridiana Assis percorreu o casamento, a sucessão, o reconhecimento de documentos e o reagrupamento familiar, enquanto outras sessões abordaram o sistema de ensino luxemburguês, da educação infantil à pós-graduação, e as particularidades de uma sociedade com três línguas oficiais: o luxemburguês, o francês e o alemão.
O encontro atravessou fronteiras. O norte-americano Daniel Atz, de Nova Iorque, moderou um painel com Travis Gross, director executivo da Luxembourg American Cultural Society, sobre formas de preservar a cultura luxemburguesa e estreitar a cooperação entre as comunidades fixadas fora da Europa.
Houve ainda espaço para a memória e para a festa. Foi apresentado o livro «Luxemburgueses no Brasil», de Filipe Kun, que reconstitui a chegada de diferentes famílias ao país. A costureira Jacqueline, que recolheu moldes junto de um grupo de folclore, tem vindo a remontar no Brasil o traje típico dos primeiros imigrantes, chegados em 1860, numa apresentação que devolveu ao palco os hábitos de então. Entre os patrocinadores, Roberto Alff destacou a escola de negócios LSB, sediada no Luxemburgo, e a Cachaçaria 1862, cujos proprietários descendem de luxemburgueses e cujo nome evoca o ano de fixação dos primeiros antepassados. O dia fechou com o sorteio de garrafas de Crémant, o espumante do Grão-Ducado, informou a ACLUX.
A ligação entre gerações teve rosto na participante mais nova. Helena Hoffmann, de apenas três anos e descendente de Valentin Mayer, um dos imigrantes luxemburgueses que chegaram a Santa Catarina no século XIX, viajará à Europa nos próximos meses para levantar o primeiro passaporte. «Eu não tive a oportunidade de morar no estrangeiro, mas, se um dia ela quiser seguir esse caminho, a cidadania vai facilitar essa jornada», contou a mãe.


