Uma intensa ronda de contactos por África e pelo Golfo tem marcado o regresso à vida pública de Umaro Sissoco Embaló, vários meses após o alegado golpe de Estado de novembro na Guiné-Bissau. O antigo chefe de Estado reaparece ao lado do ex-Presidente senegalês Macky Sall, numa agenda que, só na última semana, o levou a pelo menos quatro países — Somália, Senegal e Gâmbia —, além de contactos no Qatar. O objectivo é claro: angariar apoios para a candidatura de Sall a secretário-geral das Nações Unidas.
Em Banjul, Sall agradeceu publicamente o empenho do homólogo bissau-guineense. «Estou muito feliz por estar aqui em Banjul com o meu irmão, Presidente Umaro Sissoco Embaló. Viemos cumprimentar o nosso querido irmão, o presidente Adama Barrow», declarou. «Como sabem, sou candidato ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Estive em Dakar esta tarde e disse que não podia passar por lá sem parar em Banjul para cumprimentar o meu irmão Adama Barrow e agradecer-lhe todo o apoio e conselhos.»
O momento não é neutro. O regresso de Embaló à cena pública coincide com uma Guiné-Bissau ainda mergulhada em crise política. Até agora, o ex-Presidente nada disse sobre a situação interna do país. E é esse silêncio que os analistas ouvidos pela Deutsche Welle sublinham.
Santos Mustas, analista político, reconhece um gesto de solidariedade entre líderes — algo próprio das relações internacionais. Mas vê mais do que isso. Para ele, o reaparecimento faz parte de uma estratégia de reposicionamento regional, com Embaló a tentar preservar as alianças construídas durante os anos no poder. «Esse reaparecimento pode ser interpretado como uma tentativa de manter capital político e diplomático na região, lançando a imagem de um líder que continua relevante nos assuntos africanos», afirma.
Mamadu Djaló, ex-candidato presidencial e líder do Partido Aliança para a República (APR), considera normal, do ponto de vista político, a actuação de Sissoco a favor de Sall. Faz, porém, uma ressalva de peso: a prioridade do ex-chefe de Estado deveria ser encontrar uma saída para a crise no seu próprio país. «A sua investida não é em nome da Guiné-Bissau, mas em seu próprio nome», critica.
Desde o alegado golpe, a Guiné-Bissau é gerida por uma administração de transição, liderada por militares e apoiada por algumas figuras próximas do antigo Presidente. O país atravessa um período de incerteza política e institucional, marcado por restrições às liberdades cívicas e por dificuldades económicas, com as atenções voltadas para o regresso à ordem constitucional.
O jurista e analista Fransual Dias vai mais longe e alerta para os riscos externos desta postura. «Esta ofensiva não irá reforçar a imagem nem a credibilidade internacional da Guiné-Bissau. Pelo contrário, evidencia o contraste entre a projecção externa e os desafios internos», sustenta. E remata: Umaro Sissoco Embaló parece mais interessado em afirmar-se do que em resolver os problemas da República da Guiné-Bissau.


