O segundo envio de ajuda humanitária do Luxemburgo para a Venezuela já está a ser preparado, mas com uma lista bem diferente da primeira remessa. Do muito que foi recolhido no Grão-Ducado, ficou por seguir vestuário, calçado, água e alguns produtos de higiene pessoal — champôs e sabão líquido, sobretudo. Quem o explica é Linda Suárez, do grupo de voluntários venezuelanos residentes no Luxemburgo que se juntou à associação Le Lien du Cœur para a angariação de bens. As razões são de duas ordens. Os líquidos levantam problemas de volume e de acondicionamento, uma vez que embalagens sujeitas a pressão correm o risco de abrir. Já o vestuário defronta-se com um obstáculo diferente: segundo Linda Suárez, o Governo venezuelano proibiu a entrada de roupa nas doações, por não ser considerada bem de primeira necessidade. No terreno, o argumento é visível a olho nu — chegou roupa a mais, muita dela largada na rua, sem uso. No Luxemburgo, ficaram toneladas no ponto de recolha.
As associações parceiras fizeram chegar uma lista de classificação, com o que pode e o que não pode seguir, e a prioridade está definida. «Estávamos a dar prioridade a tudo o que é medicamentos, insumos médicos, máscaras» e material de primeiros socorros, descreve a voluntária. A seguir vêm as fórmulas para bebé, papas, leite em pó, produtos de higiene infantil e fraldas — muitas fraldas. A justificação é dura. Muitas pessoas perderam membros nos sismos de 24 de Junho e o custo desse trauma, avisa, só se verá plenamente dentro de alguns anos; entretanto, o sistema de saúde venezuelano, já fragilizado antes da catástrofe, não tem capacidade de resposta. «Nunca vai ser demais», resume. Os produtos de higiene pessoal, quando permitidos, fazem também toda a diferença por uma razão de preço: um champô que no Luxemburgo custa um ou dois euros pode chegar aos dez ou doze na Venezuela.
Há uma categoria nova a entrar na lista, e é aquela onde o Luxemburgo pode ter uma vantagem natural. Material de protecção — capacetes, luvas, equipamento básico de estaleiro — é urgente e, num país tão dedicado à construção civil, relativamente fácil de arranjar. A remoção dos escombros vai demorar muito tempo e está a ser feita praticamente sem máquinas, à mão. «É impossível tirar aquelas estruturas sem um capacete ou sem luvas», sublinha Linda Suárez. Quanto à água, a recomendação inverte a lógica habitual: em vez de enviar garrafas, cujo volume torna o transporte pouco rentável, vale mais enviar filtros potabilizadores ou máquinas de produção de água, disponíveis no mercado.
Depois há o dinheiro, e aqui a conversa muda de tom. Quem dá quer saber para onde vai, e há um cansaço evidente de ver donativos desaparecerem sem chegar a ninguém. No terreno, o dinheiro circula por duas vias: pontos focais de confiança — um familiar, uma prima, uma vizinha que viva em Caracas, em Valencia, Barquisimeto, Mercari ou Meron, — e associações, grandes ou pequenas, conforme a confiança de cada um. La Guaira está fechada, sem nada a funcionar, o que obriga a comprar em Caracas e outros locais e a transportar até pontos específicos, muitas vezes para famílias que dormem na rua. No Luxemburgo, o ponto de contacto indicado para donativos em dinheiro é a Le Lien du Cœur, que tem trabalhado sobretudo caso a caso, através de uma colaboradora com conhecimento directo do terreno. O método é simples e verificável: quem compra em Caracas ou noutro local apresenta factura e, na entrega, mandam-se fotografias. «Mais transparente que isso, acho que é impossível», afirma Linda Suárez. Esta família precisa de fraldas, de latas, de uma cozinha — e vai-se até lá.
Para quem quer ter noção de valores, os números ajudam. Uma família de quatro pessoas precisará, na Venezuela, de qualquer coisa entre 500 e 800 dólares por mês — e para sobreviver, sublinhe-se, não para viver com dignidade. A Venezuela é um país pobre por décadas de deriva política, mas é um país caro. Mil euros de donativo não são, por isso, um gesto abstracto: são meses de sustento para uma família concreta.
A preocupação maior, porém, é o que vem a seguir. Há grupos de voluntários, com e sem associação, a distribuir diariamente refeições quentes. «E o que vai acontecer daqui a duas, três semanas? Estas pessoas vão cozinhar onde?», questiona a voluntária. Onde vão lavar a roupa — que é, afinal, a razão por que tanta roupa está deitada na rua? Faltam lavandarias públicas, faltam condições mínimas, e a capacidade de resposta do Estado venezuelano não existe. É por isso que, como já se disse quando o primeiro camião partiu, isto mal começou.
Declarações recolhidas pelo Lëtzebuerg Hoje. Ver também: «Ajuda luxemburguesa a caminho da Venezuela» (14 de Julho de 2026).


