Peças de vestuário para usar no dia-a-dia — saias, tops, coisas que se levam para as férias — é isto que sai hoje das mãos que durante anos só se imaginavam a fazer napperons. A arte que muita gente ainda arruma na gaveta da decoração antiga anda a ser reinventada em casa, por encomenda, sem loja e sem montra, por artesãs como Mónica Gonçalves, sócia da associação APSA e presença regular nos eventos da comunidade lusófona no Grão-Ducado.

O ponto de partida foi outro. «Primeiro comecei com a restauração de móveis antigos, tudo começou por aí», contou, em declarações ao Letzebuerg Hoje. Foi na altura da covid. A procura apareceu — muita, sublinha — e durante algum tempo dedicou-se inteiramente ao restauro. Depois a vida pessoal impôs-se e o caminho mudou de direcção.
O crochê, esse, vinha de trás. De muito trás: da avó, ainda em pequenina. Regressou como refúgio e ficou como ofício. «É uma terapia também», diz, e não é frase de circunstância — foi terapia para ela própria, num período em que precisava de uma. É também, admite, uma arte que nem toda a gente aprecia. Mas que está na moda, e vê-se: até nas grandes superfícies aparecem peças em crochê, feitas à máquina, claro está.

Tudo funciona por encomenda. Não há espaço físico, não há loja aberta ao público — há uma página no Facebook e no Instagram, Monatelier Art, onde publica os projectos e faz vídeos, e a partir daí chegam os telefonemas e os pedidos. Resultou muito bem, garante. Chegou a ter trabalhos expostos e disponíveis em lojas de Dudelange, mas o comércio fechou entretanto. A porta a novas colaborações continua aberta, e ela não esconde vontade: se houver comerciantes interessados em ter as suas peças, gostava. Muito.
Neste momento tem uma saia em mãos, para si própria, para as férias — o top já está feito. Vai a tempo? «Vou ver se consigo», ri-se, porque entre um evento e outro o tempo escapa-se. O método é sempre o mesmo: criar peças diferentes, pensadas para cada estação do ano, e adaptar. O crochê permite isso, insiste. Adapta-se sempre.

Há um plano em cima da mesa que ainda não saiu do papel. Vários pedidos de formação já lhe chegaram, e a hipótese de organizar workshops chegou a ser falada com o senhor Fernando, da associação, sem que a oportunidade se concretizasse até agora. Faça-se com a APSA ou por conta própria, é coisa que a interessa: «acho que é uma arte que não deve ficar esquecida», afirmou ao Letzebuerg Hoje, defendendo que o saber passe aos mais jovens e a quem realmente queira aprender. Viver disto, esse é outro capítulo — reconhece receio, porque a coisa é incerta, e observa o exemplo de uma jovem que segue em Portugal, com formação anterior em marketing, que sustenta a actividade com workshops, uma academia com peça mensal e o patrocínio de uma marca de fios. Vender peças, só por si, não chega.
Quanto a encontros com o público, o calendário abranda agora com as férias. O grande evento de Verão da associação passou há cerca de quinze dias e o próximo grande momento só regressa no final do ano, com o mercado de Natal, seguido do mercado da Páscoa no início do ano seguinte. Pelo meio vão surgindo convites de outros sítios, que a associação aceita e onde ela participa. É sempre um prazer, diz. E entretanto continua a fazer crochê no tempo que sobra de um emprego na limpeza — porque, para já, é assim que as contas se pagam.


