O gelo diplomático que se instalou no Sudeste Asiático desde 2021 acaba de conhecer o seu primeiro degelo formal: os chefes da diplomacia da Associação de Nações do Sudeste Asiático voltaram a sentar-se à mesa, cara a cara, com o seu homólogo de Mianmar, desta vez em Banguecoque. E Timor-Leste — o mais recente membro da organização, e o único de língua portuguesa — esteve lá.
A reunião informal decorreu sob presidência das Filipinas, com organização a cargo da Tailândia, e contou com a participação do Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação timorense, Bendito dos Santos Freitas. Do lado birmanês, coube a U Tin Maung Swe, titular da pasta dos Negócios Estrangeiros de Mianmar, apresentar aos pares um resumo sobre a evolução da situação no país.
Nada disto surgiu do acaso. O encontro decorre directamente de uma decisão tomada pelos líderes da ASEAN na 48.ª Cimeira da organização, em Cebu, nas Filipinas, quando foi atribuído aos ministros dos Negócios Estrangeiros o mandato de prosseguir as discussões sobre a forma de manter um envolvimento construtivo e assente em princípios com Mianmar — sem, contudo, abdicar do Consenso de Cinco Pontos, o quadro que a organização adoptou como bússola para lidar com a crise birmanesa.
E que ficou dito em Banguecoque? Os ministros sublinharam que Mianmar continua a ser parte integrante da família da ASEAN, trocaram pontos de vista sobre o envolvimento da organização com Naypyidaw e analisaram medidas concretas susceptíveis de promover três objectivos: a cessação da violência, o diálogo construtivo entre todas as partes envolvidas e o reforço da assistência humanitária. Tudo em conformidade com o mesmo Consenso de Cinco Pontos.
Para a comunidade timorense radicada no Grão-Ducado, a presença de Bendito dos Santos Freitas nesta mesa tem um peso simbólico que ultrapassa a agenda do dia. Segundo o Governo de Timor-Leste, foi este o primeiro encontro presencial entre os ministros dos Negócios Estrangeiros da ASEAN e de Mianmar desde os acontecimentos de 2021 — um regresso ao contacto directo que Díli acompanhou de perto, já não como observador, mas como membro de pleno direito.


