A integração de novas perspectivas na história do Campo de Concentração do Tarrafal continua a enfrentar fortes resistências, sobretudo em Cabo Verde, onde contributos apoiados em investigação documental são frequentemente recebidos como discurso político e não como matéria histórica. A denúncia é da investigadora e jornalista portuguesa Sandra Inês Cruz, em entrevista ao jornal cabo-verdiano Expresso das Ilhas, na sequência da sua participação no Simpósio Internacional «Museu da Resistência do Campo de Concentração do Tarrafal: Salvaguardar a Memória, Inspirar a Humanidade», que decorreu no município do Tarrafal de Santiago.
Autora de uma tese de doutoramento dedicada ao esquecimento no Campo do Tarrafal e do livro «Tarrafal 1975 – O Campo do Silêncio», publicado no ano passado, Sandra Inês Cruz foi convidada, já numa fase tardia do processo de candidatura do sítio à UNESCO, para apresentar os resultados da sua investigação sobre o último período do Tarrafal enquanto espaço de privação de liberdade. Segundo relatou ao Expresso das Ilhas, a sua foi a única intervenção dissonante em dois dias de comunicações e foi recebida, em parte, não como um contributo, mas como um ataque à narrativa estabelecida. A investigadora sublinha que se limitou a apresentar factos e documentos, mas sente que tudo o que traga ruído ao discurso consolidado — incluindo sobre a primeira fase do campo, a Colónia Penal de Cabo Verde, onde a maioria da população prisional era portuguesa — encontra obstáculos e é entendido como um problema.
Para a investigadora, a narrativa dominante foi sendo «limada» ao longo de décadas, eliminando os factos dissonantes que não encaixam no espírito da oposição ao salazarismo, ao fascismo e ao colonialismo, e criando uma verdade repetida que não é a verdade inteira. Entre as vozes deixadas de fora estão homens presos por delitos comuns — cuja memorialização nos murais do campo, nota, nunca foi questionada quando se trata dos presos portugueses do primeiro período —, os presos de delito comum que figuram no painel de presos políticos sem que se conheçam os seus percursos, e dois portugueses mortos no campo que não constam do memorial das 32 vítimas trasladadas para Lisboa após o 25 de Abril, um dos quais assassinado a tiro pelos guardas, facto que afirma estar largamente documentado nos processos que consultou. Recorda ainda casos praticamente desconhecidos, como os cabo-verdianos presos durante a primeira fase da colónia penal e os 29 homens embarcados para Cabo Verde sem acusação, num processo de abandono do trabalho conservado na Torre do Tombo, que ficaram privados de liberdade fora dos muros do campo.
Sandra Inês Cruz manifestou ainda desconforto perante a indicação de que não seria oportuno corrigir a cronologia do campo nesta fase, por alegado risco para o processo de candidatura em curso, e receia que já não seja possível integrar contributos que serviriam uma musealização mais próxima da integralidade da história do sítio. Durante o simpósio, terá ouvido comentários de corredor acusando-a de tentar «branquear os traidores», reacções que interpreta como sinal de uma resistência sobretudo política à convivência de múltiplas verdades. A investigadora defende que alargar a memória do Tarrafal não retira valor à história do campo enquanto lugar de resistência — pelo contrário, torna-o um testemunho ainda mais completo da repressão do Estado Novo, incluindo dimensões como a condenação da pobreza — e espera que, na futura construção do discurso museológico pelo Instituto do Património Cultural, estas falhas possam ser preenchidas de forma neutral e independente.


