Uma redução de 968 milhões de dólares nas reservas internacionais deixou Angola com uma almofada cambial mais estreita no primeiro semestre do ano, num recuo de 6% que fez baixar os activos sob gestão do Banco Nacional de Angola (BNA) para 14,9 mil milhões USD em junho, face aos 15,9 mil milhões registados em dezembro de 2025. Os números resultam de cálculos do jornal Expansão com base nos dados diários divulgados pelo banco central.
Na base deste movimento estão, em parte, os financiamentos concedidos pelo BNA ao Governo para cobrir necessidades de tesouraria e ajudar a financiar o défice orçamental, prática que se tem repetido nos últimos anos. Até abril, o banco central já havia emprestado ao Executivo o equivalente a 1.036,7 milhões USD. A lei do BNA impede o banco central de emprestar dinheiro ao Governo, mas abre uma excepção até ao limite de 10% sobre as receitas correntes do ano anterior.
Estes empréstimos devem ser totalmente amortizados até 31 de dezembro do mesmo ano e pagos obrigatoriamente em dinheiro. No ano passado, porém, o Governo fez passar na lei do Orçamento Geral do Estado a possibilidade de efectuar o pagamento em títulos de dívida com maturidade de cinco anos, mecanismo que se concretizou. Vários especialistas alertaram que a solução não só configurava uma violação da lei do banco central, como punha em causa a independência da instituição, consagrada na Constituição.
Apesar da erosão, o nível actual das reservas mantém uma margem de segurança confortável. Tendo em conta que Angola gastou cerca de 6,0 mil milhões USD na importação de bens e serviços durante o primeiro trimestre do ano — o equivalente a uma média mensal de 2 mil milhões —, os 14,9 mil milhões USD contabilizados em junho asseguram até sete meses de importações, acima da média de quatro meses observada nos países da SADC.
Ainda assim, o país dispõe hoje de menos 2,3 mil milhões USD em reservas do que no período anterior à pandemia de Covid-19, quando totalizavam 17.211 milhões USD em 2019, altura em que haviam invertido uma tendência de queda iniciada em 2014. O valor mais baixo destes activos foi registado em janeiro de 2022, com apenas 13.350 milhões USD, ao passo que o máximo histórico ocorreu em setembro de 2013, quando as reservas valiam 35.188 milhões USD. Constituídas por dólares, euros, ouro e outras divisas controladas pelo banco central, bem como por títulos de dívida soberana de outros países, estas reservas servem para cumprir obrigações internacionais, como o pagamento de dívidas externas e outras despesas em moeda estrangeira, desempenhando um papel central na estabilidade económica, na confiança dos investidores e na capacidade de o país absorver choques ou crises financeiras.


