Quase metade dos residentes no Luxemburgo admite não saber como reagir concretamente perante uma situação de crise, apesar de acompanhar com regularidade a informação sobre os principais riscos que ameaçam o país. Esta é uma das conclusões centrais do inquérito nacional sobre a percepção dos riscos e das ameaças, realizado no âmbito da Estratégia Nacional de Resiliência e apresentado esta terça-feira pelo Governo do Luxemburgo como etapa decisiva no reforço da preparação colectiva face a situações excepcionais.
A divulgação dos resultados surge num momento particularmente ilustrativo, marcado por um episódio de calor extremo que colocou o país em alerta vermelho e mobilizou fortemente as autoridades e os serviços de socorro. Esta situação demonstrou, na prática, que os riscos — climáticos, sanitários, tecnológicos ou de segurança — podem materializar-se rapidamente e afectar o conjunto da sociedade, recordando que a resiliência assenta tanto na acção coordenada dos poderes públicos como na capacidade de cada pessoa para se informar e adoptar comportamentos adequados. Conduzido junto de uma amostra representativa de 1.500 residentes, o inquérito procurou compreender a forma como a população encara estes desafios, o seu nível de informação e o seu grau de preparação individual.
Os dados revelam uma população globalmente bem informada e consciente dos principais riscos, com destaque para as ciberameaças e os riscos económicos. Persiste, contudo, uma distância significativa entre essa consciência e a capacidade de agir. Embora 85% dos inquiridos afirmem informar-se regularmente, perto de um em cada dois declara não saber exactamente como proceder em caso de crise. Os riscos mais concretos são percepcionados como os mais prováveis, ao passo que ameaças de maior gravidade mas menos tangíveis, como crises nucleares ou conflitos militares, continuam a ser vistas como distantes, ainda que com consequências consideradas graves ou mesmo catastróficas. A preparação de base está relativamente disseminada — 71% dispõem de detectores de fumo e há quem mantenha reservas —, mas revela-se insuficiente perante crises de grande dimensão.
O inquérito evidencia igualmente um forte potencial de mobilização cívica: 86% dos inquiridos dizem-se dispostos a ajudar os vizinhos ou a integrar uma reserva civil, sanitária ou militar, valor que se fixa nos 60% no caso específico de uma reserva. A confiança nas instituições mantém-se elevada, sobretudo no que respeita à continuidade dos serviços essenciais, apontada por 83% dos participantes. Ainda assim, os cidadãos manifestam expectativas acrescidas quanto à clareza, à rapidez e ao carácter concreto da informação disponibilizada.
Com base nestes resultados, o Governo do Luxemburgo pretende reforçar a sua acção em torno de vários eixos prioritários, entre os quais o acesso a informação clara, prática e multilingue, o desenvolvimento de instrumentos concretos de preparação — guias práticos, kits de crise e formações — e o aumento da visibilidade de dispositivos já existentes, como o sistema de alerta LU-Alert. Merecem particular atenção os jovens e os públicos mais vulneráveis, identificados como menos preparados. Neste quadro insere-se o guia «Lëtz prepare!», concebido para apoiar a população na preparação para situações de emergência, com conselhos práticos para constituir reservas e um kit de autonomia para 72 horas, além de explicar o funcionamento do LU-Alert e os reflexos a adoptar em caso de urgência.
Ao nível institucional, o Ministério dos Assuntos Internos publicou um guia em treze etapas destinado a apoiar os municípios na elaboração de um Plano local de resiliência, partindo do princípio de que são as comunas que melhor conhecem as realidades dos seus territórios. O ministro Léon Gloden salientou o papel do CGDIS como escudo civil da sociedade e a criação, no seu seio, da RESC-LU, uma reserva nacional de capacidades específicas destinada a apoiar as autoridades locais e nacionais em caso de catástrofe, resumindo o objectivo numa fórmula: «Evitemos que uma catástrofe se transforme numa crise.» A ministra da Defesa, Yuriko Backes, abordou as ameaças à segurança e de natureza militar num ambiente internacional em transformação, sublinhando a importância da cooperação civil-militar, enquanto o Primeiro-Ministro, Luc Frieden, insistiu na necessidade de garantir a continuidade dos serviços essenciais e a confiança na acção pública. «Estar informado não basta — é preciso saber agir. A resiliência constrói-se em conjunto. Tudo depende de cada um de nós», declarou.

