Uma expansão económica robusta, mas dependente de uma única cultura e minada pela quebra da produtividade do trabalho, marca o desempenho recente da Guiné-Bissau e levanta dúvidas sobre a solidez do modelo de crescimento do país. O produto interno bruto real avançou 5,8% em 2025, impulsionado por uma campanha forte de castanha de caju e por preços à produção que sustentaram os rendimentos no meio rural e o consumo das famílias. Sob este resultado favorável persistem, no entanto, fragilidades de fundo — uma dívida pública elevada, um sistema financeiro vulnerável e um sector privado que gera emprego mas perde eficiência —, segundo o Grupo Banco Mundial.
A leitura consta da actualização económica sobre o país elaborada pela instituição, num relatório dedicado aos caminhos para desbloquear um crescimento do sector privado assente na produtividade. O documento examina a trajectória macroeconómica da Guiné-Bissau, os riscos no plano orçamental e financeiro e o conjunto de reformas necessário para conduzir a economia a um modelo mais diversificado e produtivo. «A Guiné-Bissau mostrou um crescimento resiliente em 2025 — mas uma resiliência ancorada numa única cultura e sobrecarregada pela queda da produtividade laboral não é uma base para uma prosperidade duradoura. Converter o investimento actual em melhores empregos e rendimentos crescentes para os agregados familiares guineenses exigirá um sistema fiscal mais justo, um acesso mais alargado a financiamento e instituições fiáveis», afirmou Rosa Brito, representante residente do Banco Mundial para a Guiné-Bissau.
No domínio dos grandes equilíbrios, os indicadores apresentam sinais contraditórios. A inflação caiu acentuadamente para 0,9% em 2025, aliviando temporariamente o orçamento das famílias num quadro de instabilidade política. O défice das contas públicas reduziu-se para 6,5% do PIB, ainda que à custa, sobretudo, da contenção da despesa e não de um aumento sustentado da receita. A dívida pública atingiu 75,6% do PIB, ultrapassando o limite fixado pela União Económica e Monetária da África Ocidental, ao mesmo tempo que o crédito malparado subiu para mais de 22% a meio do ano, estrangulando o financiamento às pequenas e médias empresas, aos negócios liderados por mulheres e ao conjunto do sector privado.
Para o ano em curso, as projecções apontam para uma travagem. Estima-se que o crescimento do PIB recue para 4,8% em 2026, reflectindo a moderação do investimento e a incerteza política que se prolonga após a transição de novembro de 2025. Os efeitos do conflito no Médio Oriente deverão repercutir-se na economia guineense, principalmente, através do encarecimento das importações de combustíveis e de alimentos — cada uma com um peso próximo de 30% no total — e do agravamento dos custos de transporte, que reduz as margens da exportação do caju. O relatório recomenda que a acção política privilegie a protecção das famílias mais vulneráveis sem comprometer a sustentabilidade das contas públicas. A pobreza extrema deverá descer para 37,8% até 2028, embora a subida dos preços dos alimentos e da energia possa atrasar esse percurso.
O diagnóstico mais revelador surge na comparação entre investimento e produtividade. Com base no Inquérito às Empresas de 2025, o relatório identifica uma divergência acentuada: a percentagem de empresas que investem em activos fixos aumentou de 45,1% em 2006 para 61,2% em 2025, enquanto a produtividade do trabalho passou a terreno negativo, recuando de 6,2% para -6,8%. As empresas admitem mais trabalhadores sem alargar a produção, um sinal de criação de emprego de baixa qualidade que perpetua a estagnação dos salários, da eficiência e das condições de vida. A carga fiscal, as dificuldades de acesso a financiamento e a imprevisibilidade institucional impõem-se como os principais obstáculos, ao passo que as desigualdades de género na propriedade das empresas e no acesso ao crédito reduzem ainda mais a base produtiva do país.
Para inverter esta dinâmica, o documento defende o alargamento da base de tributação e a simplificação das obrigações fiscais, com a generalização da declaração electrónica e a criação de um regime simplificado para as pequenas e médias empresas, a par de um maior acesso a financiamento, sustentado em sistemas de crédito mais sólidos e em apoios dirigidos aos negócios liderados por mulheres. O relatório sublinha igualmente a importância de modernizar as alfândegas para reforçar a previsibilidade, de assegurar a fiabilidade do fornecimento de energia e a boa gestão dos serviços públicos e de encurtar o fosso digital através de reformas no sector das telecomunicações e da instalação da rede nacional de fibra óptica. «O desafio do sector privado da Guiné-Bissau não é a falta de empreendedorismo — é a falta das condições que permitem às empresas crescer, formalizar-se e tornar-se mais produtivas. Enfrentar de forma coordenada as limitações mais intensas das empresas é o que transformará o investimento em produtividade e o crescimento em melhores empregos», concluiu Maria Elkhdari, economista para a Guiné-Bissau e autora principal do relatório.


