Um crescimento real de 5,8% em 2025, sustentado por uma colheita de caju vigorosa e por preços à porta da exploração que reforçaram os rendimentos rurais e o consumo privado, devolveu algum fôlego à economia bissau-guineense. Por detrás deste indicador encorajador acumulam-se, porém, pressões estruturais profundas: um endividamento público elevado, um sector financeiro frágil e um tecido empresarial que cresce em emprego mas perde produtividade. É este o retrato traçado pela Actualização Económica da Guiné-Bissau (Primavera de 2026), divulgada pelo Banco Mundial.
Intitulado «Caminhos para Desbloquear o Crescimento do Sector Privado Liderado pela Produtividade», o relatório examina a trajectória macroeconómica do país, os riscos do sector fiscal e financeiro e a agenda de políticas necessária para orientar a economia para um modelo mais diversificado e produtivo. A inflação recuou de forma acentuada para 0,9% em 2025, oferecendo um alívio temporário às famílias num quadro de incerteza política persistente, enquanto o défice orçamental se estreitou para 6,5% do produto interno bruto. Essa consolidação, segundo o Banco Mundial, assentou sobretudo na contenção da despesa e não num reforço da cobrança de receitas.
A dívida pública fixou-se em 75,6% do PIB, ultrapassando o tecto definido pela União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA). Os créditos malparados dispararam para mais de 22% a meio de 2025, estrangulando o financiamento às pequenas e médias empresas, às firmas lideradas por mulheres e ao sector privado em geral. Para 2026, prevê-se um abrandamento do crescimento para 4,8%, reflectindo um investimento contido e a incerteza associada à transição política de novembro de 2025.
Os efeitos do conflito no Médio Oriente deverão chegar à Guiné-Bissau sobretudo pela via da subida dos preços de importação de combustíveis e de alimentos — que representam, cada um, cerca de 30% das importações — e pelo agravamento dos custos de frete, que comprimem as margens da exportação de caju. As prioridades de política devem, de acordo com o documento, centrar-se na protecção das famílias mais vulneráveis sem comprometer a sustentabilidade macro-orçamental. A pobreza extrema deverá descer para 37,8% até 2028, ainda que a escalada dos preços dos alimentos e dos combustíveis possa atrasar esse progresso. «A Guiné-Bissau apresentou um crescimento resiliente em 2025 — mas uma resiliência ancorada numa única cultura e sobrecarregada pela queda da produtividade do trabalho não constitui um alicerce para uma prosperidade duradoura. Transformar o investimento actual em melhores empregos e em rendimentos crescentes para as famílias bissau-guineenses exige um sistema fiscal mais justo, um acesso mais amplo ao financiamento e instituições em que as empresas possam confiar», sublinhou Rosa Brito, representante residente do Grupo Banco Mundial para a Guiné-Bissau.
Com base no Inquérito às Empresas de 2025, o relatório identifica uma divergência notável entre investimento e produtividade do trabalho no sector privado. A proporção de empresas que investem em activos fixos subiu de 45,1% em 2006 para 61,2% em 2025, mas a produtividade laboral inverteu-se de forma acentuada, caindo de 6,2% para -6,8%. As empresas contratam mais trabalhadores sem aumentar a produção, num padrão de criação de emprego de baixa qualidade que mantém estagnados os salários, a eficiência e os níveis de vida. A tributação, o acesso ao financiamento e a imprevisibilidade institucional emergem como os constrangimentos mais determinantes, ao passo que as desigualdades de género na propriedade das empresas e no acesso ao crédito continuam a estreitar a base produtiva da economia.
Para inverter esta tendência, o Banco Mundial preconiza o alargamento da base tributária e a simplificação do cumprimento fiscal, incluindo a generalização da declaração digital e a criação de um regime simplificado para as PME, a par de um acesso mais amplo ao financiamento, através de sistemas de crédito mais sólidos e de apoio direccionado às pequenas empresas e às firmas lideradas por mulheres. O documento salienta ainda a necessidade de modernizar a administração aduaneira, garantir a fiabilidade do sector energético e a boa governação dos serviços públicos e reduzir o fosso digital, com reformas nas telecomunicações e a expansão da infra-estrutura nacional de fibra óptica. «O desafio do sector privado da Guiné-Bissau não reside na ausência de empreendedorismo — reside na ausência das condições que permitem às empresas crescer, formalizar-se e tornar-se mais produtivas. Enfrentar de forma coordenada os constrangimentos mais determinantes das empresas é o que transformará o investimento em produtividade e o crescimento em melhores empregos», afirmou Maria Elkhdari, economista do país e autora principal do relatório.


